O EFEITO RICOCHETE - Ivenio Hermes

março 12, 2017

Quem se importa com nossos agentes de segurança
Por Ivenio Hermes
A violĂȘncia que nĂŁo se quer ver.

A violĂȘncia vem se espalhando em nĂșmeros nunca antes vistos no Rio Grande do Norte e a sensação de insegurança Ă© um dos efeitos mais fĂĄceis de se observar, pois o clamor pĂșblico recebe o eco midiĂĄtico e demanda atitudes do executivo, que emparedado pela sua prĂłpria incapacidade, dĂĄ respostas imediatistas e cujo resultado amplia a insegurança vivida pelo cidadĂŁo potiguar e aqueles que escolheram morar ou passar suas fĂ©rias no estado elefante.

Dentre as respostas imediatistas mais comuns estĂĄ a imposição de cargas de trabalho excessiva aos agentes de segurança pĂșblica, que por sua vez se sentem responsĂĄveis quando veem seus esforços nĂŁo surtindo o efeito que gostariam.
Essa violĂȘncia traduzida em nĂșmeros pode ser vista no quadro ao lado, onde temos os nĂșmeros da violĂȘncia homicida dos primeiros 90 dias (trĂȘs meses) de 2015 e 2016 e os primeiros 70 dias de 2017. Ainda faltando 20 dias para finalizar o mĂȘs de março e os nĂșmeros jĂĄ quase atingiram (faltando apenas 6 CVLIs) o mesmo nĂșmero de 2016 e ultrapassou em muito os nĂșmeros de 2015.
Uma face oculta da violĂȘncia
Uma outra face dessa violĂȘncia atinge os agentes de segurança, que cada vez mais sobrecarregados e com a criminalidade em maior vantagem, começam a sofrer como vĂ­timas costumeiras de crimes em geral.
O quadro acima, por exemplo, apresenta o filtro dos assassinatos de agentes encarregados de aplicar a lei, enquanto nos 365 dias dos anos de 2015 e 2016 tivemos 10 e 9 respectivamente, em apenas 70 dias de 2017 jĂĄ tivemos 7 casos, mostrando claramente uma tendĂȘncia de elevação desses nĂșmeros.
A PolĂ­cia Militar, por ser a aquela que atende Ă s demandas criminais com mais frequĂȘncia, estĂĄ sempre a um passo de ser confrontada pela criminalidade, tendo baixas em suas fileiras e tendo que causar mortes em confrontos por estar, quase sempre e rotineiramente, em notĂłria desvantagem numĂ©rica, de armamento, de capacitação continuada, de desgaste fĂ­sico e mental, e de acompanhamento mĂ©dico-psicolĂłgico.
Os dados dizem que 1 (um) policial militar morreu fora de serviço, sendo em decorrĂȘncia da atividade policial em 2015; tambĂ©m no mesmo ano houve mais 5 policiais assassinados em latrocĂ­nios e 1 (um) policial militar da reserva (aposentado) tambĂ©m assassinado. Em 2016, 1 (um) policial militar morreu em serviço, 3 fora de serviço e 2 aposentados; nos dias iniciais de 2017, 4 policiais militares morreram fora de serviço, mas em decorrĂȘncia da atividade policial, e mais 2 aposentados foram assassinados.
Um efeito reverso
O que poucas autoridades do executivo conseguem perceber Ă© o efeito ricochete dessa violĂȘncia praticada contra os policiais. Se por um lado aumenta o nĂșmero de policiais vĂ­timas da violĂȘncia homicida, em outras faces, aumenta o empoderamento dos criminosos que se tornam mais audazes, atacam bases de polĂ­cia, delegacias e outros prĂ©dios sob a tutela protetiva direta ou indireta do estado. Temos inĂșmeros casos nesse viĂ©s. As bases comunitĂĄrias da PolĂ­cia Militar em MossorĂł, Delegacias de PolĂ­cia em Natal, RegiĂŁo Metropolitana e restante do Estado, mais bases de polĂ­cia em Nova Descoberta, Natal, viaturas, alĂ©m de crimes (atĂ© de homicĂ­dios) acontecerem nas proximidades de instalaçÔes de polĂ­cia por todo o estado.
A ausĂȘncia do protagonismo do poder executivo na segurança pĂșblica torna as forças policiais cada vez mais combalidas e inexpressivas, nĂŁo importa quĂŁo numerosas sejam as açÔes policiais. A profissĂŁo policial imerge num diapasĂŁo que a torna mais perigosa que jĂĄ Ă© por sua natureza. O efeito ricochete faz com que o policial fique suscetĂ­vel atĂ© a crimes de roubo, cujo objetivo do criminoso Ă© se apoderar de armas, proteção balĂ­stica e outros equipamentos que um policial pode carregar no trĂąnsito de ida e vinda de seu trabalho.
A vitimização policial, nĂŁo querendo de nenhuma forma exceder no argumento, causada pelo prĂłprio estado ao submetĂȘ-lo a escalas exaustivas, possui um ricochete que muitos gestores teimam em nĂŁo admitir: quanto mais suscetĂ­vel e exausto estĂĄ o policial, mais aumenta a letalidade que pode causar.
No quadro acima, por exemplo, extraĂ­mos que durante os anos de 2015 e 2016 houve 76 e 75 açÔes tĂ­picas de estado respectivamente. Em 2017, nesses 70 dias jĂĄ decorridos, jĂĄ aconteceram 17 casos, nĂșmeros que mostram novamente tendĂȘncia de elevação.
Parecendo estar alheia ou indiferente a esses nĂșmeros, a Secretaria de Estado da Segurança PĂșblica e da Defesa Social, ainda nĂŁo conseguiu reverter minimamente as mĂĄs condiçÔes de trabalho dos policiais. O mapeamento criminal do Estado parece achar irrelevante esses nĂșmeros, e cada dia que passa mais casos se somam aos jĂĄ ocorridos.
AusĂȘncias, faltas e perda de protagonismo
Havendo uma anĂĄlise prognĂłstica e situacional adequada, haveria como consequĂȘncia um certo planejamento estratĂ©gico que faria o estado protagonizar soluçÔes junto com o judiciĂĄrio e legislativo, ainda no começo de 2015, para corrigir o erro administrativo que impediu que os 824 aptos para polĂ­cia militar ingressassem e reforçassem a segurança pĂșblica, e alĂ©m dessa solução, o lançamento de concurso pĂșblico para as polĂ­cias. NĂŁo havendo antecipação aos problemas, ano a ano, as polĂ­cias vĂȘm sendo sucateadas e ficando em condiçÔes cada vez piores de desenvolver suas atividades.
O mapeamento prognóstico não parece gerar ferramentas que deem suporte a construção de mapas térmicos, ou se esses mapas são feitos, parecem existir apenas para informar onde os crimes acontecem, mas não para preveni-los.
Da forma como os nĂșmeros da violĂȘncia e da criminalidade vem sendo usados, nĂŁo Ă© possĂ­vel se ter um serviço de qualidade na segurança pĂșblica. Para reduzir os nĂșmeros da letalidade policial, da vitimização dos agentes de segurança pĂșblica, para recriar um sentimento de confiança e credibilidade nas instituiçÔes de segurança, nĂŁo adianta fazer propaganda, Ă© preciso investir e reconhecer o policial como detentor de direitos, e dar a eles o suporte para que cumpram seus deveres.
O mapeamento da violĂȘncia e da criminalidade nĂŁo deve e Ă© atĂ© imprĂłprio ficar restrito Ă  construção de informaçÔes estatĂ­sticas, cuja finalidade Ă© criar grĂĄficos, reunir pessoas em torno de dados e gerar agenda positiva para o estado, ela deve propulsionar açÔes, identificar Ă­ndices fora da curva, dados divergentes e atĂ© estudar para entender como se processam os motores da violĂȘncia no Rio Grande do Norte.
O alto preço pago pela perda do protagonismo da segurança pĂșblica, se mostra em eventos como a tragĂ©dia de Alcaçuz. Imaginem quantas pessoas sofrem ou jĂĄ sofreram pela insegurança gerada pelas centenas de fugitivos do sistema carcerĂĄrio potiguar…
Enquanto isso nĂŁo for feito, continuaremos nadando nesse Rio Grande de Morte em que as terras de Poti se transformaram em 2016, um rio que continua correndo livre em 2017…

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