O FANTASMA DO GOLPE DE 1964
março 26, 2019![]() |
Bolsonaro tem direito a sua opiniĂŁo sobre a ditadura, nĂŁo a reescrever a histĂłria
Por Helio Gurovitz
26/03/2019 07h16 Atualizado hĂĄ 44 minutos
Reescrever a histĂłria Ă© um item previsĂvel no manual dos candidatos a autocratas. O exemplo canĂŽnico Ă© StĂĄlin, que mandava apagar os adversĂĄrios que matava das fotografias. StĂĄlin foi a inspiração do escritor britĂąnico George Orwell em 1984 e na sĂĄtira A revolução dos bichos. EstĂĄ nele a origem do termo “orwelliano” para qualificar as tentativas de disseminar a mentira oficial como verdade.
Para o linguista americano George Lakoff, um dos analistas mais argutos do discurso polĂtico contemporĂąneo, quando um lĂder soa orwelliano, abre um flanco, demonstra uma fraqueza que serĂĄ explorada pelos adversĂĄrios. Ao afirmar que o presidente Jair Bolsonaro nĂŁo considera que tenha havido um “golpe militar” no Brasil em 1964, o porta-voz da PresidĂȘncia abriu esse flanco.
Bolsonaro pode ter dezenas de qualidades, outros tantos defeitos, mas nĂŁo Ă© historiador. Se tem razĂŁo ao apontar erros na leitura padrĂŁo na esquerda sobre os eventos daquela Ă©poca, Ă© um erro maior minimizar o arbĂtrio. NĂŁo hĂĄ dĂșvida alguma sobre os fatos: foi golpe, houve censura, tortura, pelo menos 434 mortos e desaparecidos arbitrariamente, fechamento do Congresso, cassação de direitos polĂticos.
Houve uma ditadura.
Pode-se atĂ© debater se tudo isso se justificava diante do terrorismo, da guerrilha e do risco de um golpe de esquerda no Brasil. Nenhum democrata dirĂĄ que sim, mas todo democrata genuĂno terĂĄ de admitir a divergĂȘncia. O inadmissĂvel Ă© tentar mudar os fatos por meio de palavras e expressĂ”es que tentem atenuar o arbĂtrio. Ă chamar uma ditadura de qualquer outra coisa que nĂŁo seja ditadura.
Depois da redemocratização, as Forças Armadas passaram por uma depuração ao lidar com os erros do passado. Vem daĂ a postura mais profissional e menos polĂtica da nova geração de militares. NĂŁo houve, contudo, um acerto de contas com a punição dos responsĂĄveis por violaçÔes de direitos humanos, como na Argentina ou no Chile.
A ComissĂŁo da Verdade, estabelecida no governo Dilma Rousseff, cometeu outro equĂvoco de enormes proporçÔes ao excluir os militares e ao se omitir sobre os crimes da guerrilha. Se o objetivo era a reconciliação nacional, ignorar um dos lados era o pior caminho.
A reação era previsĂvel. Tornaram-se comuns provocaçÔes ou elogios a tiranos sanguinĂĄrios da AmĂ©rica Latina, como Stroessner ou Pinochet. A cĂșpula militar, Ă© verdade, jamais mordeu essa isca. Bolsonaro e seus partidĂĄrios sim. Nisso, em nada diferem dos comunistas que vangloriam StĂĄlin, Mao ou, mais recentemente, dos petistas que defendem Maduro.
Tiranos são condenåveis independentemente de coloração ideológica. São condenåveis tão-somente por ser tiranos. Por censurar, torturar, matar adversårios arbitrariamente e por tentar impÎr uma visão mentirosa e distorcida da história.
As “comemoraçÔes devidas” do Golpe de 1964, autorizadas por Bolsonaro, nĂŁo devem em nenhum momento perder de mente o carĂĄter nefasto da ditadura que assombrou o Brasil por quase 20 anos. Reconhecer a desgraça dos Anos de Chumbo, tanto na polĂtica quanto na economia, nĂŁo significa endossar o terrorismo ou o autoritarismo de esquerda. Significa valorizar a democracia.
Ela foi uma das mais difĂceis e custosas conquistas brasileiras. Mas o Brasil aprendeu. Aprendeu que democracia Ă© melhor que ditadura, que liberdade Ă© melhor que tirania, que nenhum inimigo, real ou imaginĂĄrio, justifica a violação sistemĂĄtica e arbitrĂĄria de direitos humanos, a tortura, a censura e os assassinatos nos porĂ”es.
NĂŁo fosse a democracia, Bolsonaro nĂŁo estaria onde estĂĄ. Seria importante que ele reconhecesse o valor de todos aqueles que lutaram dentro da lei (a gigantesca maioria) para acabar com a ditadura imposta depois do golpe. SĂŁo eles que lhe garantem o direito a ter sua prĂłpria opiniĂŁo sobre o assunto e a expressĂĄ-la livremente. Mas, jamais, o de negar os fatos ou de tentar reescrever a histĂłria.

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