CRIVELLA VIROU UM AVISO MUNICIPAL PARA BOLSONARO

abril 02, 2019


Por Josias de Souza | 02.04.2019

A gestĂŁo de Marcelo Crivella na prefeitura do Rio de Janeiro nunca foi um bom exemplo. De repente, virou um bom aviso. Serve para recordar aos outros prefeitos, aos governadores e ao presidente da RepĂșblica que, no Brasil, gestor pĂșblico que desdenha do Legislativo arrisca-se a enfrentar a maldição do impeachment. Por 35 votos a 14, a CĂąmara de Vereadores do Rio decidiu abrir processo de impeachment contra Crivella. Tudo aconteceu com a velocidade de um truque cinematogrĂĄfico. Na segunda-feira, um fiscal da Secretaria de Fazenda protocolou na CĂąmara um relato sobre contratos renovados pela prefeitura sem licitação. Nesta terça, veio a paulada. Nenhuma investigação preliminar. Nenhum pedido de CPI. Avançou-se direito para o processo de impeachment. Mal comparando, Crivella parece tratar o Legislativo municipal com a mesma desatenção que dedica ao Carnaval carioca. Num paĂ­s em que dois dos cinco presidentes eleitos diretamente sofreram impeachment isso Ă©, no mĂ­nimo, uma temeridade.

NĂŁo Ă© Ă  toa que Jair Bolsonaro decidiu estender o tapete vermelho para o MDB e os partidos do centrĂŁo. O capitĂŁo receberĂĄ no Planalto os partidos que desancava depois de ser alertado para o fato de que o Congresso brasileiro desenvolveu uma tecnologia para derrubar presidentes. No momento, Bolsonaro nĂŁo conta com o apoio declarado nem mesmo da unanimidade dos 54 deputados do seu PSL.

Se Bolsonaro não tiver do seu lado pelo menos 171 votos, permite que se forme na trincheira oposta a maioria circunstancial de 342 votos necessåria à abertura do processo de impeachment na Cùmara. Crivella permanece no cargo até que os vereadores decidam sobre o futuro do seu mandato, dentro de 90 dias. Em Brasília, Collor e Dilma tiveram de aguardar fora do trono pelo julgamento político do Senado.

DifĂ­cil saber quais serĂŁo os resultados da sĂșbita disposição de Bolsonaro para a negociação polĂ­tica. O presidente pode explodir a qualquer momento, pois estĂĄ mais acostumado a virar mesas do que a se sentar em torno delas. Mas o exemplo de Crivella talvez exerça sobre Bolsonaro os efeitos de um irresistĂ­vel sedativo. Por uma dessas ironias da vida, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), filho 'Zero Dois' do presidente da RepĂșblica, votou a favor da abertura do processo de impedimento de Crivella. Fez isso Ă s vĂ©speras das reuniĂ”es que seu pai terĂĄ em BrasĂ­lia com os partidos da banda fisiolĂłgica do Congresso —entre eles o PRB do prefeito Crivella, um admirador confesso do capitĂŁo.

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