Especial: "Ouro Branco"

setembro 28, 2019


"#ArquivoNatGeo No Rio Grande do Norte, a cultura do sal impulsiona a economia e fascina turistas, mas em alguns casos nĂŁo respeita a dignidade humana.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018 Por Marcio Pimenta

JoĂŁo, JosĂ©, MourĂŁo, Ari, Preto, Junior e Tonho. Todos eles tĂȘm tatuada a geografia na pele. Hoje de manhĂŁ eu soube que, desde a primeira hora da madrugada, eles estavam coletando sal. Ainda nĂŁo eram nem sete horas da manhĂŁ e eles inda iriam montar pirĂąmides perfeitas atĂ© a metade daquela manhĂŁ, quando enfim fariam uma pausa para, entĂŁo, retomar o trabalho logo mais apĂłs o almoço e atĂ© que o Sol descansasse.


Cada pirĂąmide de sal equivale a quatro ou cinco carrinhos de mĂŁo, que eles levam carregados por um pequeno trajeto atĂ© o local onde um caminhĂŁo irĂĄ recolher todo o sal coletado. E Ă© aĂ­ que acaba o trabalho deles. De setembro a fevereiro, todos os anos. Para cada tonelada eles precisam fazer o trajeto treze vezes. Por algum motivo eles fazem as contas de produtividade do trabalho de dez em dez toneladas e, quando alcançam esse nĂșmero, colocam uma pedra de sal maior sobre uma pequena peça de madeira para nĂŁo perder as contas. No momento em que os encontrei, havia quatro pedrinhas de sal, o que significa que, desde a madrugada atĂ© aquele momento, eles jĂĄ tinham carregado quarenta toneladas de sal, ou seja, os sete trabalhadores percorreram quinhentas vezes o mesmo trajeto, carregando em mĂ©dia 77 kg de sal, em uma jornada diĂĄria de aproximadamente doze horas. E seguiam carregando e contando.

Diz o ditado popular que os mais generosos dentre nĂłs sĂŁo aqueles que tĂȘm menos chances de exercitar sua generosidade, daĂ­ que, quando me ofereceram um cafĂ© durante a pausa da jornada de trabalho, nĂŁo pude recusar, embora nĂŁo me agrade em absolutamente nada cafĂ© açucarado, e encontrei entre aqueles homens tanta dignidade e ternura que bebi aquele cafĂ© como se estivesse nas montanhas da ColĂŽmbia. Sentados nas mesmas redes que utilizam para dormir, jĂĄ que nĂŁo hĂĄ camas para eles, me contam que nĂŁo hĂĄ qualquer salĂĄrio fixo e nem um acordo de trabalho com o proprietĂĄrio da salineira, alguĂ©m que eles nunca viram na vida. O pagamento Ă© feito ao final do trabalho atravĂ©s de um “feitor”, como eles chamam o funcionĂĄrio que cuida da contratação e outros serviços relacionados aos empregados. Cinco deles sĂŁo imigrantes que deixaram a famĂ­lia para dividir uma casa sem janelas, de tijolos aparentes, com um quarto e cozinha e um Ășnico banheiro. Os demais residem na cidade onde trabalham. Aos primeiros, cabe ainda abrir mĂŁo de algum dinheiro da produtividade para visitar as famĂ­lias e voltar para a salina.

(...)

No caso das salinas do Rio Grande do Norte, fica ainda mais difĂ­cil punir. A assessoria de comunicação do MinistĂ©rio PĂșblico do Trabalho no Rio Grande do Norte me explica que quando se trata de uma empresa registrada, eles sabem como localizar, investigar para confirmar a situação, e entĂŁo punir, mas o mesmo se torna mais difĂ­cil quando o proprietĂĄrio Ă© pessoa fĂ­sica, jĂĄ que quase nunca se tem acesso.


A regiĂŁo de MossorĂł, no Rio Grande do Norte, e os municĂ­pios vizinhos, sĂŁo os grandes produtores de sal. Dali sĂŁo escoadas milhĂ”es de toneladas todos os anos. É possĂ­vel encontrar desde o sal mais desejado pelos grandes chefs de cozinha, a tal da flor de sal, atĂ© o sal mais simples para ser usado na fabricação de ração. O calor, tĂ­pico da regiĂŁo, e forte componente que torna a regiĂŁo competitiva na produção de sal marinho, nos faz buscar uma sombra sempre que possĂ­vel. Nenhum equipamento de proteção ao Sol Ă© oferecido pelo proprietĂĄrio para estes trabalhadores. Como a jornada exaustiva acontece sob este clima, eles usam trapos de roupas, protetor solar e Ăłculos escuros para se protegerem e impedir que a geografia aprofunde as marcas na pele. Tudo pago por eles, assim como o cafĂ© açucarado, as refeiçÔes e qualquer outra necessidade bĂĄsica que precisem.


O Rio Grande do Norte nĂŁo estĂĄ no topo da lista do trabalho escravo no Brasil. Os maiores casos estĂŁo em regiĂ”es com forte presença de atividades agropecuĂĄrias e de construção civil. A assessoria de imprensa do MinistĂ©rio PĂșblico do Trabalho no estado lista 58 processos relacionados Ă  atividade de salineiras. As denĂșncias se se referem a diversas irregularidades do trabalho, mas nenhuma Ă© classificada especificamente como ocorrĂȘncia de trabalho escravo. De fato, a indĂșstria do sal se modernizou bastante no Brasil, assim como a da cana-de-açĂșcar (outra atividade muito comum de ocorrĂȘncias de trabalho escravo, em especial no Nordeste). Mas em Grossos, onde encontrei estes trabalhadores, a situação Ă© diferente. HĂĄ cerca de vinte pequenas salineiras que usam mĂ©todos manuais exaustivos para a coleta do sal.


Outra razĂŁo que me leva a crer que nĂŁo hĂĄ denĂșncias de trabalho escravo Ă© que a realidade mais Ăłbvia Ă© tambĂ©m muito difĂ­cil de ser reconhecida. NĂŁo sĂŁo raros depoimentos de trabalhadores que foram resgatados dessa situação e nem mesmo sabiam que estavam sendo escravizados. O mesmo acontece com moradores locais e turistas que olham para aquelas pirĂąmides de sal e se deixam encantar pela beleza, sem se darem conta de que o Sol corta a pele e, muitas vezes, a dignidade humana.

MatĂ©ria completa  (National Geographic: https://t.co/H6VY9ofdne")

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