Itaipu: Paraguaio diz que suplente do PSL usou nome de Bolsonaro para acordo
outubro 02, 2019![]() |
| Paraguai consome 15% da energia produzida na usina Foto: Alexandre Marchetti/Itaipu Binacional |
O engenheiro Pedro Ferreira, ex-presidente da Ande (a estatal de energia do Paraguai) disse, em depoimento Ă CPI criada para investigar a venda de energia de Itaipu, que o empresĂĄrio Alexandre Giordano, suplente do senador Major OlĂmpio (PSL-SP), citou o nome da famĂlia Bolsonaro em uma reuniĂŁo entre representantes da LĂ©ros e da estatal.
Ă a segunda vez que o nome de Giordano surge em meio Ă s investigaçÔes. Em agosto, o advogado JosĂ© “Joselo” RodrĂguez, que se apresentava como assessor jurĂdico da vice-presidĂȘncia do paĂs vizinho, disse ter ouvido Giordano usar o nome da famĂlia Bolsonaro. Na CPI, no entanto, o advogado recuou.
De acordo com o senador Eusebio Ramon Ayala, presidente da comissĂŁo, o depoimento de Ferreira trouxe novos dados sobre a posição da LĂ©ros para negociar no Brasil a energia paraguaia. “O engenheiro trouxe dados mais precisos sobre a possibilidade de a LĂ©ros obter autorização (do governo brasileiro) para vender energia no Brasil”, disse o senador.
Segundo Pedro Ferreira, o encontro entre representantes da LĂ©ros e da Ande aconteceu no dia 10 de maio em Ciudad del Este, um dia depois de o presidente Jair Bolsonaro ter ido Ă trĂplice fronteira para a cerimĂŽnia de inĂcio das obras da Ponte da Integração, ao lado do presidente do Paraguai, Mario Abdo BenĂtez.
Ainda segundo o relato do ex-presidente da Ande, Giordano se apresentou como “representante eleito do governo brasileiro” e disse que tinha influĂȘncia suficiente para conseguir uma autorização para comercializar a energia excedente do Paraguai no mercado brasileiro. “Ele se apresentou como um representante eleito do governo. Disse que poderia conseguir a permissĂŁo (para vender energia paraguaia no Brasil), porque era bem relacionado”, afirmou Ferreira.
O engenheiro disse que foi informado diretamente pelo presidente Abdo BenĂtez sobre o interesse da LĂ©ros em comercializar a energia paraguaia numa reuniĂŁo da qual tambĂ©m participaram o vice-presidente, Hugo RodrĂguez, e o ministro da Fazenda, Benigno LĂłpez, no palĂĄcio do governo, em Assunção, algumas semanas antes da reuniĂŁo. “JĂĄ estavam falando que havia pessoas muito bem conectadas que viriam (Ă trĂplice fronteira) com o presidente Bolsonaro no dia 10 de maio”, afirmou Ferreira no depoimento.
Os nomes do suplente de senador e dos empresårios não constam na lista da comitiva presidencial. Embora tenha previsão tanto no tratado binacional para construção de Itaipu quanto em acordos posteriores, a possibilidade de empresas privadas venderem energia da usina no Brasil nunca foi regulamentada e depende de atos administrativos do governo.
Ferreira disse Ă CPI que no palĂĄcio do governo ficou combinado que ele e o vice-presidente receberiam os representantes da empresa brasileira em Ciudad del Este, no dia 9, mesmo da visita do presidente Bolsonaro. O engenheiro, no entanto, foi informado em cima da hora e sĂł pĂŽde ir no dia seguinte, levando ao adiamento do encontro.
A viagem na qual lançou a pedra fundamental da Ponte da Integração foi a segunda de Bolsonaro Ă trĂplice fronteira desde que assumiu o cargo. Antes, ele foi Ă posse de Joaquim da Silva e Luna como presidente de Itaipu, no dia 27 de fevereiro. Um dia depois, Giordano esteve no PalĂĄcio do Planalto.
De acordo com o ex-presidente da Ande, alĂ©m de Giordano, participaram do encontro outros dois representantes da LĂ©ros. Um deles, segundo o empresĂĄrio, era Adriano Rosa, dono da LĂ©ros. O outro, segundo Ferreira, se chama “Koc”, possivelmente NicolĂĄs Martins Koc Pinto, segundo integrantes da investigação.
Ferreira disse que Giordano mencionou Bolsonaro durante a reuniĂŁo. “(Giordano) voltou a mencionar o nome Bolsonaro na frente de todos. NĂŁo entendi muito bem de qual Bolsonaro ele falava, mas depois, conversando entre nĂłs (da Ande) entendemos que era um dos filhos”, disse o engenheiro.
Ligação
Giordano sublocou uma sala comercial no prĂ©dio onde fica seu escritĂłrio, em Santana (zona norte de SĂŁo Paulo), para ser a sede do diretĂłrio estadual do PSL, cujo presidente Ă© o deputado Eduardo Bolsonaro. Segundo o ex-presidente da Ande, Giordano chegou a apresentar uma credencial de identificação e, em momento algum, disse que era representante da LĂ©ros. O crachĂĄ era branco com a marca impressa em verde, mas o engenheiro nĂŁo conseguiu ler o que estava escrito. “Ele (Giordano) mostrou fora do meu campo de visĂŁo”, explicou Ferreira.
O suplente do senador negou ter usado o nome de Bolsonaro e disse que foi ao Paraguai na qualidade de empresĂĄrio interessado em comercializar a energia excedente de Itaipu no Brasil. Ele disse ter desistido do negĂłcio posteriormente.
“NĂŁo falei nada disso. Jamais. Ă o contrĂĄrio. Quanto menos eu falar sobre polĂtica mais tenho sucesso (nos negĂłcios). Chego em todos lugares quieto, nunca falei nada, pois sou meramente um suplente. Vivo da vida empresarial conforme jĂĄ relatei”, disse Giordano.
A LĂ©ros Ă© um dos focos da investigação que corre no Congresso paraguaio. A CPI investiga possĂveis irregularidades na assinatura da ata bilateral firmada entre os governos do Brasil e Paraguai para comercialização da energia excedente de Itaipu.
Um dos pontos contestados Ă© a exclusĂŁo do acordo do item 6, que dava Ă Ande o monopĂłlio para venda de energia paraguaia no Brasil. Integrantes da comissĂŁo suspeitam que o item 6 foi excluĂdo para beneficiar a LĂ©ros. A empresa nega. Em agosto, o engenheiro Ferreira tornou o caso pĂșblico e Abdo BenĂtez, ameaçado de impeachment, rompeu unilateralmente o acordo.
Com conteĂșdo EstadĂŁo

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