Covid-19 devasta interior do RN com letalidade 464% maior fora da capital

abril 27, 2020

Funcionårios da prefeitura fazem desinfecção das ruas de MossoróImagem: Divulgação/Prefeitura de Mossoró

De cada quatro mortes confirmadas por covid-19 no Rio Grande do Norte atĂ© o boletim de sexta-feira (24), o Ășltimo divulgado pelo estado, trĂȘs ocorreram fora da capital, Natal. A forma como o novo coronavĂ­rus se comporta lĂĄ foge Ă  regra do paĂ­s, que tĂȘm uma concentração maior longe do interior.

A taxa de letalidade da doença tambĂ©m revela uma diferença brutal entre capital e interior. Em Natal, essa taxa era de 2,5% na sexta-feira, enquanto fora da capital esse Ă­ndice chega a 14,1% — 464% de diferença. No paĂ­s, essa taxa de letalidade era na sexta de 6,9%.

Parte da taxa de letalidade mais alta pode ser explicada pela subnotificação de casos leves, jĂĄ que as pessoas tendem a procurar mais os serviços de saĂșde nos grandes centros. Outra explicação seria o fato de que, como no interior hĂĄ mais escassez de serviço de saĂșde, as pessoas deixam para procurar as unidades mais tardiamente, o que aumenta a chance de um bom resultado na hospitalização.

Das 37 mortes confirmadas atĂ© agora, 28 foram em cidades do interior, com destaque para MossorĂł (a 288 km de Natal), que tem nove mortes confirmadas — mesmo nĂșmero de Natal, mas com uma população 71% menor que a capital potiguar.

Para efeitos de comparação, no estado de São Paulo, dos 1.512 óbitos até sexta causados pela doença, 1.010 ocorreram na capital (67% do total). No Rio, dos 530 óbitos até sexta, 322 foram na capital fluminense.
A cidade de Mossoró também é a primeira a não ter mais vagas de UTI (Unidade de Terapia Intensiva). No Hospital Tarcísio Maia, na sexta-feira, os 17 leitos de terapia intensiva estão ocupados. Em Natal, das 38 vagas exclusivas para covid-19 montadas pelo estado, 16 estavam ocupadas.

Viagens e isolamento descumprido

Dos 754 casos de covid-19 confirmados até a sexta no Rio Grande do Norte, 359 foram em Natal e 395 no interior. Entre as maiores cidades, Assu é a que registra o maior percentual de casos: 43,4 para cada 100 mil habitantes. São 25 casos confirmados e 30 suspeitos, segundo boletim divulgado na sexta-feira.

Para tratar pacientes, o estado destinou 89 leitos de UTI exclusivos para covid-19. Além dos casos confirmados, o estado confirmou no såbado 3.928 casos suspeitos em 155 dos 167 municípios do estado. Em casos confirmados, o total atinge 53 municípios, 17 deles com mortes registradas.

Segundo a subcoordenadora de VigilĂąncia EpidemiolĂłgica da Secretaria de SaĂșde PĂșblica do Rio Grande do Norte, Alessandra Lucchesi, hĂĄ alguns fatores que ajudam a entender a disseminação do vĂ­rus pelo interior.

Ela explica que, assim como em todo estado do Brasil, a contaminação começou com os casos importados e só depois houve o espalhamento do vírus e a transmissão comunitåria. "Depois disso começou essa interiorização. A maioria dos casos são de pessoas que tiveram contato com pessoas de outras localidades", explica.

Lucchesi alega que existem alguns motivos para as altas taxas de contaminação, o principal dele sendo a relutùncia em aderir ao distanciamento social.

"O que a gente vem acompanhando hoje é descumprimento do isolamento, com a realização de reuniÔes, além do håbito de conviver com famílias maiores em casa. Isso em alguns municípios foi muito característico, e acreditamos ser um dos principais motivos para ter esse aumento de casos confirmados", conta.

Outro ponto citado Ă© o grande fluxo intermunicipal, que favorece a transmissĂŁo cruzada entre cidades. "Temos casos de famĂ­lias que visitaram pessoas em outras cidades e voltaram. Essa tem tido uma caracterĂ­stica muito forte", explica, citando ainda que outras situaçÔes pontuais, como a contaminação por profissionais de saĂșde, tambĂ©m foram registradas.

No caso de MossorĂł, a subcoordenadora afirma que a proximidade com o CearĂĄ (epicentro de casos no Nordeste) Ă© um fator que contribuiu para o aumento dos casos. "HĂĄ um fluxo muito intenso, tĂȘm vĂĄrios pacientes do CearĂĄ que sĂŁo atendidos em MossorĂł. Hoje isso nĂŁo favorece ao cenĂĄrio epidemiolĂłgico de MossorĂł", afirma.
Para tentar conter o avanço, Lucchesi diz que não hå outra forma, por ora, a não ser a tentativa de estimular que as pessoas façam mais isolamento social e cumpra medidas de higiene sanitåria.

"O que a gente tem instruĂ­do sĂŁo as medidas educativas, que precisam ser cada vez mais intensificadas, alĂ©m de sensibilização da população para cumprir medidas de prevenção, e nĂŁo apenas usar a mĂĄscara — mas que adotem todas as outras açÔes como lavar as mĂŁos", finaliza.

Com conteĂșdo UOL

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