Covid-19: Pesquisa revela 12 vezes mais infectados que dados oficiais
maio 16, 2020Estudo em seis distritos de SĂŁo Paulo feito por epidemiologistas, laboratĂłrio Fleury e Ibope encontra 5% de moradores com anticorpos para SARS-CoV-2
15maio2020_22h30
CAMILLE LICHOTTI
Pesquisa para medir o alcance da infecção pelo novo coronavĂrus na cidade SĂŁo Paulo trouxe resultados preocupantes: em seis distritos da capital, 5,2% dos moradores jĂĄ tiveram contato com o vĂrus. Isso significa que um total de 18.299 pessoas jĂĄ estavam infectadas quando a pesquisa foi realizada – 12 vezes o total de casos registrados nesses distritos pela vigilĂąncia epidemiolĂłgica da cidade atĂ© entĂŁo, 1.535. A estimativa Ă© que 91,6% dos infectados nĂŁo entraram nas contagens oficiais. O estudo foi realizado por epidemiologistas, pelo grupo de laboratĂłrios Fleury, em parceria com o Ibope, e concentrado em seis distritos, escolhidos por apresentarem as maiores taxas de casos e mortes por Covid-19 por cem mil habitantes. As anĂĄlises foram feitas em Bela Vista, Jardim Paulista, Morumbi, Pari, BelĂ©m e Ăgua Rasa.
Para realizar os testes, os pesquisadores coletaram uma amostra de sangue venoso de 520 pessoas. A pesquisa de soroprevalĂȘncia investigou a existĂȘncia de anticorpos para o Sars-CoV-2, causador da Covid-19, produzidos dias depois da infecção. As amostras foram coletadas de 4 a 12 de maio em domicĂlios escolhidos aleatoriamente. Mesmo preliminares, os resultados atestam a gravidade do problema de subnotificação no Brasil e confirmam que os dados oficiais nĂŁo retratam o verdadeiro estĂĄgio da doença. O Brasil Ă© um dos paĂses que menos testa no mundo – cerca de 3.400 testes por milhĂŁo de habitantes – e esse apagĂŁo de dados dificulta a adoção de estratĂ©gias de contenção da Covid-19.
O teste realizado pelos pesquisadores identifica a presença de anticorpos tambĂ©m em pessoas assintomĂĄticas, que nĂŁo sĂŁo testadas pelo SUS e nĂŁo chegam sequer a entrar na contagem defasada de casos confirmados ou suspeitos mantida pela estatĂstica oficial. Mas esses portadores assintomĂĄticos tambĂ©m ajudam a espalhar a doença. A Ășnica forma de diminuir transmissĂŁo Ă© o isolamento social.
Os pesquisadores relataram problemas na abordagem dos moradores. Alguns deles se recusaram a receber as equipes. Quando nĂŁo eram os moradores, eram os porteiros. Os pesquisadores alertam que a circulação de boatos e fake news prejudicaram a ação da equipe. “NĂŁo existe nenhum tipo de teste sendo feito pelo estado ou municĂpio”, dizia um cartaz. “EstĂŁo assaltando as casas com esse pretexto”, foi outro boato que circulou pelas regiĂ”es da pesquisa.
As ĂĄreas escolhidas tĂȘm perfis socioeconĂŽmicos diferentes. Os distritos do Morumbi, Bela Vista e Jardim Paulista foram escolhidos por apresentarem mais casos em relação Ă população. AtĂ© o dia 11 de maio eram 1.265, 479 e 439 casos por cem mil habitantes, respectivamente. Pari, BelĂ©m e Ăgua Rasa, ĂĄreas mais pobres e de maior de vulnerabilidade social, foram escolhidos por apresentarem as maiores taxas de morte. AtĂ© a mesma data, eram 92, 82 e 64 Ăłbitos por 100 mil habitantes, respectivamente. AtĂ© o dia 11 de maio foram registrados 175 Ăłbitos por Covid-19 nesses distritos. Levando em conta a quantidade de infectados calculada pela pesquisa, a letalidade aparente da doença Ă© 0,95%. Ă um nĂșmero parecido com o encontrado por pesquisadores franceses, que estimaram uma taxa de letalidade de 0,7% no paĂs em maio, depois de quase dois meses de lockdown.
Os pesquisadores brasileiros pretendem replicar o estudo para toda a cidade de SĂŁo Paulo em junho. A capital concentra atualmente o maior nĂșmero de casos registrados no Brasil. Uma pesquisa semelhante, mas feita com testes rĂĄpidos e menos precisos para detecção de anticorpos, estĂĄ em campo no Brasil inteiro e deve ter resultados na prĂłxima semana. Para essa pesquisa, a Universidade Federal de Pelotas faz a coleta e o Ibope realiza a amostragem.
Com conteĂșdo revista piauĂ

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