Por que o procurador de Bolsonaro quer acabar com a Lava Jato?

junho 29, 2020


A briga de Augusto Aras com os procuradores de Curitiba Ă© sobre o poder de polĂ­cia sobre os polĂ­ticos

Por Thomas Traumann

29 Jun 2020, 17h34 - Publicado em 29 Jun 2020, 16h04


A mais importante batalha polĂ­tica em curso hoje nĂŁo Ă© entre o PalĂĄcio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal, mas dentro da Procuradoria Geral da RepĂșblica, a PGR. ResponsĂĄvel pelos inquĂ©ritos envolvendo crimes e autoridades federais, a PGR tornou-se um campo minado. De um lado estĂĄ o procurador geral Augusto Aras, indicado por Jair Bolsonaro e que quer o apoio do presidente para virar ministro do STF. Do outros, os procuradores que montaram a Operação Lava Jato. Quem vencer essa briga terĂĄ o poder de polĂ­cia sobre os polĂ­ticos.

Na sexta, 26, os quatro procuradores dedicados Ă s investigaçÔes da Lava Jato renunciaram em protesto ao que chamaram tentativa de interferĂȘncia ilegal nas suas investigaçÔes. A mando de Augusto Aras, a subprocuradora Lindora Maria AraĂșjo viajou a Curitiba e, segundo os procuradores da Lava Jato, tentou copiar bancos de dados sigilosos das investigaçÔes sem apresentar pedidos formais. A corregedoria da PGR abriu investigação sobre o caso.

Um dos motivos da ida de Lindora foi a descoberta de que desde 2016, todos os telefones da Lava Jato são gravados, a maior parte do tempo sem uma autorização judicial. A Lava Jato confirmou o fato, mas justificou que apenas os ramais institucionais eram gravados para apurar ameaças aos procuradores. A justificativa não convenceu os chefes da PGR.

Desde a saĂ­da do ex-juiz Sergio Moro do governo Bolsonaro, a relação dos procuradores da Lava Jato com Augusto Aras Ă© conturbada. O procurador Aras negocia a delação premiada de um ex-operador da Odebrecht que denunciou ter recebido um pedido de suborno de advogado amigo de Sergio Moro para fechar um acordo com os procuradores de Curitiba. Moro descartou a denĂșncia. Depois que Moro rompeu com Bolsonaro, Aras retomou a conversa com o denunciante, o advogado Rodrigo Tacla Duran. Para o mundo polĂ­tico, Aras estĂĄ tentando constranger Moro e agradar a Bolsonaro.

Nos governos do PT, a indicação do procurador geral era feita pelos próprios procuradores, em uma eleição interna. Bolsonaro rompeu com a tradição e indicou Aras. Sob a sua gestão, a PGR tem dado zero prioridades às investigaçÔes que envolvem a família Bolsonaro e aliados do presidente. Em compensação, tem avançado nos inquéritos que envolvem governos de oposição.

Essa domesticação da PGR enfrenta oposição interna. Na terça, 23, a insatisfação dos subordinados com Aras ficou evidente com a eleição dos novos subprocuradores para o Conselho Nacional do MinistĂ©rio PĂșblico. Os eleitos sĂŁo opositores do procurador geral e tiveram mais de 600 votos cada. Os candidatos defendidos por Aras receberam menos de 200 votos.

A Lava Jato nasceu do braço de um inquĂ©rito sobre a fraude de um posto de gasolina em BrasĂ­lia. Com as delaçÔes premiadas do doleiro que usava o posto de gasolina para lavar dinheiro e de um ex-diretor da Petrobras beneficiado pelo esquema, os procuradores descobriram uma rede de propinas envolvendo polĂ­ticos do PT, PP e MDB. Depois, as investigaçÔes mostraram que esse esquema se repetia na construção de hidrelĂ©tricas, usinas nucleares, estĂĄdios de futebol, estradas de SĂŁo Paulo, prĂ©dios pĂșblicos do governo de Minas Gerais e quase todas as compras do Estado do Rio. Como se diz no interior, cada enxadada, uma minhoca.

JĂĄ faz tempo que polĂ­ticos tentam controlar o alcance da Lava Jato. Ficou clĂĄssica a gravação do ex-senador Romero JucĂĄ defendendo um “grande acordo nacional com Supremo e tudo e delimitava onde estĂĄ”. Depois da declaração de JucĂĄ, a Lava Jato ainda divulgou a lista com centenas de polĂ­ticos beneficiados com doaçÔes ilegais da Odebrecht e da JBS, condenou e prendeu o ex-presidente Luiz InĂĄcio Lula da Silva, grampeou e processou o entĂŁo presidente Michel Temer e gerou o clima de “todo polĂ­tico Ă© ladrĂŁo” que ajudou na eleição de Jair Bolsonaro. Por ironia, a operação que nasceu sob o governo do PT investigando o PT, cresceu no governo do MDB investigando o MDB, estĂĄ morrendo por asfixia com o presidente que ela ajudou a eleger.

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