Alexandre Carlo: emblema da Natiruts decifra a cena brasiliense

julho 17, 2020



A construção do cenĂĄrio do reggae music em BrasĂ­lia se deve muito ao grupo Nativus, criado na capital federal em meados de 1990. Posteriormente, renomeada Natiruts, desenvolveu-se com a proposta de, por meio da mĂșsica, levar paz e mensagens positivas para o pĂșblico. Em homenagem Ă  banda que tanto significa para a cultura de BrasĂ­lia, esta edição do Conversas Candangas Ă© com Alexandre Carlo, vocalista do Natiruts. 


Como foi o processo de formação da banda?

Ao contrårio do que se pensa, nós, da formação inicial, não nos conhecíamos antes da banda.

O processo de criação começou por volta de 1993 quando eu tive a intenção de colocar em prĂĄtica minha ideia de formar uma banda de reggae nos moldes da minha maior referĂȘncia Bob Marley & The Wailers. Nesse momento, eu ainda nĂŁo conhecia nenhum dos futuros integrantes que formariam o Nativus. Os dois primeiros que conheci foram LuĂ­s e Bruno no time de futebol da UnB. Numa das comemoraçÔes que ocorriam depois dos jogos, conheci Juninho, o futuro baterista. Nos tornamos grandes amigos e Juninho foi o primeiro a abraçar a ideia das cançÔes.

MĂșsicas como Presente de um beija-flor e Liberdade pra dentro da cabeça jĂĄ existiam naquele momento. Isso em 1994. Em 1995, convidei Bruno e LuĂ­s para completar os postos de percussĂŁo e baixo e fizemos os primeiros ensaios juntos. Em 1996, tivemos a presença de AndrĂ© Carneiro na guitarra e fizemos alguns shows com o nome Nativus e o sĂ­mbolo da banda, ambos criados por mim em 1994. Em abril de 1996, tivemos a entrada de Izabella e, logo, depois do Kiko Peres, substituindo AndrĂ©. Com a consolidação de todas as funçÔes que eu gostaria para a banda, inclusive a da presença feminina, considero ali a fundação da ideia inicial. E vejo todos como peças fundamentais para isso.


Naquela época, o reggae não era um estilo tão comum no repertório de artistas brasilienses.

Como era, naquela época, a forma encontrada para divulgar a banda?


Apesar de gostar de rock e ter Renato Russo como um dos compositores que mais admiro na mĂșsica brasileira, eu nĂŁo me sentia culturalmente representado por esse movimento. Vi no reggae essa representatividade que achava necessĂĄria para mim e para a cultura do DF, que jamais foi sĂł de rock. A forma de divulgação foi a clĂĄssica da Ă©poca: dar um jeito de gravar uma fita-demo e distribuir pela cidade. O diferencial da nossa fita eram Presente de um Beija-flor e Liberdade pra dentro da cabeça. Numa Ă©poca em que nĂŁo existiam YouTube ou Facebook, e as pessoas nĂŁo tinham a mĂ­nima ideia visual e estĂ©tica de como seriam os integrantes. O poder dessas duas cançÔes foi fundamental para o inĂ­cio do sucesso fenomenal. Fora isso, houve um fato interessante. O fenĂŽmeno Nativus foi tĂŁo gigante, inesperado e inexplicĂĄvel para BrasĂ­lia, a capital do rock, que surgiram teorias para entender aquilo tudo.

Uma delas foi a que o sucesso da banda veio por intermédio de um patrocínio vindo da família de Izabella.


A sua trajetória em Brasília é extensa. Até os 26 anos, era morador do Cruzeiro. Qual memória lhe conecta mais com a cidade?


As boas sĂŁo a conexĂŁo com a natureza que a cidade proporciona. A ausĂȘncia de construçÔes muito altas, a exuberĂąncia da fauna e da flora do cerrado, alĂ©m da beleza do cĂ©u de BrasĂ­lia, sem dĂșvida, foram inspiração para todas as cançÔes que compus para o disco Nativus.


BrasĂ­lia tem um potencial artĂ­stico incrĂ­vel. Na minha visĂŁo, o fato de ter uma formação cultural que pode ser vista como um resumo do Brasil, contribui muito para o surgimento de projetos originais, como Raimundos, Renato Mattos, GOG, Viela17, Ellen OlĂ©ria, Tribo da Periferia e tantos outros. No entanto, ainda tem uma dificuldade de entender a cultura como fator formador de cidadania e educação. Ainda Ă© comum vermos mĂșsicos sendo impedidos de trabalhar mesmo antes das 22h por polĂ­ticas arbitrĂĄrias, injustas e com viĂ©s ideolĂłgico e religioso. O que, obviamente, nĂŁo Ă© correto.


Qual Ă© a influĂȘncia e o impacto que o Natiruts tĂȘm para os artistas e para o pĂșblico da cidade?

Qualquer manifestação cultural da cidade que ganhe relevĂąncia alĂ©m das suas fronteiras se torna referĂȘncia de vitĂłria, de que Ă© possĂ­vel vencer as dificuldades e realizar sonhos. Felizmente, BrasĂ­lia tem muitos desses representantes, o que torna a importĂąncia da cidade coerente com a função de capital federal do Brasil.

Como Ă© a proposta de vocĂȘs em relação a ser uma banda inclusiva, que luta por direitos?


A Natiruts veio para mostrar um lado que sempre fez parte da cultura de BrasĂ­lia, mas era desconhecida pelo grande pĂșblico no Brasil. Esse lado zen/existencialista que nosso cĂ©u e nosso cerrado nos lembra todos os dias.

Por isso, nĂŁo Ă© visto por nĂłs como algo caricato ou alienatĂłrio como em outros centros urbanos mais densos.


Durante a pandemia, a banda estava com algum projeto em aberto? Como tiveram que se adaptar ao novo cenĂĄrio da cultura?

EstĂĄvamos em turnĂȘ. Em 2019, gravamos um DVD, em Buenos Aires, onde reunimos 16 mil pessoas no Luna Park, casa mais tradicional de Buenos Aires. Mas o lançamento desse trabalho estava programado para o final deste ano. SerĂĄ em formato de filme. Teremos show, documentĂĄrio, clipes inĂ©ditos, histĂłria da banda atĂ© aqui, tudo reunido num mesmo pacote.


*EstagiĂĄria sob supervisĂŁo de Igor Silveira


Com conteĂșdo Correio Braziliense

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