Como casamento 'sem noivo' e princesa incomum mudaram os rumos do Brasil

julho 11, 2020


Maria Leopoldina se casou com Dom Pedro 1Âș, por procuração, em 13 de maio de 1817

Foi um casamento sem a presença do noivo, mas que mudaria os rumos de uma nação.
HĂĄ exatos 200 anos, no dia 13 de maio de 1817, a princesa Maria Leopoldina da Áustria entrou na Igreja Augustina, em Viena, para se casar com Dom Pedro 1Âș. Uma uniĂŁo selada por procuração - prĂĄtica comum nas uniĂ”es entre monarquias europeias.
Isso porque o prĂ­ncipe herdeiro de Portugal se encontrava no Brasil com sua famĂ­lia desde 1808.

A festa foi marcada por pompa e luxo. O pai da noiva, o imperador Francisco 1Âș, nĂŁo queria ficar atrĂĄs da demonstração de riqueza feita pelo representante da corte portuguesa, o MarquĂȘs de Marialva.
OcasiÔes como essa também serviam como representação de poder para a população local. Durante muito tempo, o termo "casamento brasileiro" foi sinÎnimo de luxo e riqueza na capital austríaca.
Havia um interesse claro das duas dinastias na uniĂŁo.

"Para as famĂ­lias reais da Ă©poca era importante fortalecer a influĂȘncia do pensamento monĂĄrquico sobre as colĂŽnias na AmĂ©rica. Era um perĂ­odo em que muitas dessas colĂŽnias estavam se tornando independentes, algumas jĂĄ impregnadas pelo pensamento republicano, como os Estados Unidos", afirmou Ă  BBC Brasil Karl Vocelka, historiador e professor da Universidade de Viena.

É curioso ver como esta uniĂŁo acabaria levando, cinco anos depois, ao processo de emancipação do Brasil. Em especial pela atuação da princesa Leopoldina, ao lado de JosĂ© BonifĂĄcio - que ficaria conhecido como o "Patriarca da IndependĂȘncia" -, nos dias que antecederam o rompimento do paĂ­s com Portugal.


Para entender como uma princesa educada para servir sua dinastia acabou se virando contra uma monarquia europeia, Ă© preciso conhecer a personalidade de Leopoldina.
Seus pais, Francisco 1Âș e Maria Teresa da SicĂ­lia, eram primos de primeiro grau, algo comum dentro da polĂ­tica de uniĂŁo praticada pela famĂ­lia Habsburgo.

A genĂ©tica prĂłxima surtiu efeito sobre a prole. O primogĂȘnito Fernando nasceu com hidrocefalia e sofria de epilepsia grave. As princesas demonstravam em geral pouca inteligĂȘncia e se interessavam mais por roupas e luxos.

A exceção era Leopoldina.

Extremamente inteligente, mas tĂ­mida e reservada, tinha paixĂŁo por ciĂȘncias naturais (Biologia e Mineralogia) e artes.
Desde criança, desenvolveu tambĂ©m uma forte religiosidade. Extremamente obediente, tinha uma devoção quase cega pelo pai, o imperador Francisco 1Âș. Deste, recebeu o conselho de obedecer a todos os desejos do marido.
"Uma vez que a vontade de meu pai é o princípio que orienta meu comportamento, estou convencida de que o céu vai me proteger e permitir que encontre minha felicidade nesta união", escreveu em carta a uma tia.

De fato, os primeiros anos do casamento com Dom Pedro 1Âș foram felizes. O prĂ­ncipe se encantou inicialmente pela mulher inteligente e exĂłtica - mulheres loiras, de olhos azuis e pele branca eram raras no Brasil da Ă©poca.

O casal gostava de sair junto para cavalgar pelo Rio de Janeiro e recebia colonos diretamente no cais do porto da cidade, com Leopoldina fazendo o papel de intérprete para alemães que ali desembarcavam.
O nascimento dos primeiros filhos transformou Leopoldina fisicamente. Avessa a qualquer tipo de vaidade e ostentação, ela abria mão do uso de espartilhos e joias. Preferia se vestir com calça de equitação (um escùndalo na época para uma moça da alta sociedade) e botas com esporas.

Alguns relatos de estrangeiros dĂŁo conta que ela "parecia uma cigana".
As escapadas amorosas de Dom Pedro, que nunca havia sido o marido mais fiel, se intensificaram. Leopoldina sabia disso, mas sofria em silenciosa resignação. Talvez para equilibrar a relação com o marido, ela resolveu mergulhar na política a partir do ano de 1821. Pelo menos nesse campo ele dava ouvidos à esposa e confiava em suas avaliaçÔes.

O paĂ­s vivia um perĂ­odo especialmente instĂĄvel. O rei Dom JoĂŁo 6Âș, pai de Pedro, jĂĄ havia voltado a Portugal e, pressionado pela corte, solicitava que o filho tambĂ©m retornasse a Lisboa, alĂ©m de ameaçar retirar do Brasil a condição de reino, praticamente "rebaixando" o paĂ­s novamente ao papel de colĂŽnia.

No início de janeiro de 1822 houve o famoso "Dia do Fico", quando Dom Pedro afirmou abertamente que não retornaria a Portugal. A presença de tropas portuguesas no Rio de Janeiro deixou o clima tenso e o casal viveu uma tragédia pessoal.

Ante os fortes rumores de que seriam levados à força para Lisboa, Leopoldina decidiu fugir com os filhos do Palåcio da Boa Vista para a fazenda de Santa Cruz. O trajeto sob o intenso calor do verão carioca foi demais para o pequeno João Carlos, de apenas um ano, que adoeceu e morreu poucos dias depois.

Leopoldina colocou a culpa nos generais portugueses e passou a trabalhar com mais afinco pelo rompimento entre Brasil e Portugal. No inĂ­cio de setembro, quando Dom Pedro estava em SĂŁo Paulo para lidar com distĂșrbios na cidade, Leopoldina assumiu o papel de regente.
ApĂłs dias de deliberação com JosĂ© BonifĂĄcio e outros polĂ­ticos a favor da independĂȘncia, ela escreveu para o marido uma carta enfĂĄtica incentivando-o Ă  separação das duas naçÔes.

"O pomo estĂĄ maduro. Colha-o agora, senĂŁo ele apodrece", foi como encerrou o texto.
Para o historiador austrĂ­aco Vocelka, o papel ativo de Leopoldina na independĂȘncia nĂŁo surpreende: "Ela tinha a personalidade mais forte entre os dois. Dom Pedro certamente nĂŁo era o marido mais fiel, entĂŁo ela buscou alguma atividade que lhe desse uma certa independĂȘncia".

JĂĄ a doutora em histĂłria pela USP Joana Monteleone acredita que o apoio de Leopoldina ao movimento de independĂȘncia tenha sido, na verdade, uma inteligente jogada polĂ­tica de uma monarca.

"Algo que se esperava das princesas era que atuassem politicamente a favor de suas casas reais. Leopoldina nĂŁo gostaria que acontecesse no Brasil o que estava acontecendo com as colĂŽnias espanholas vizinhas, com todas se tornando repĂșblicas. Ao apoiar a independĂȘncia brasileira, numa espĂ©cie de continuidade da dinastia de Dom Pedro 1Âș, ela reafirmava seu poder sobre este territĂłrio".

Na mesma viagem a SĂŁo Paulo em que declarou a independĂȘncia do Brasil, Dom Pedro conheceu a mulher que, de certa forma, encerraria o papel de Leopoldina tambĂ©m na polĂ­tica. Domitila de Castro foi atĂ© uma audiĂȘncia do prĂ­ncipe pedir ajuda para uma questĂŁo da guarda de seus filhos do primeiro casamento. Terminaram a noite juntos.

O que parecia ser mais uma aventura amorosa de Pedro acabaria transformando o inĂ­cio do Brasil imperial. Domitila virou uma espĂ©cie de "amante oficial", ganhando residĂȘncia no Rio de Janeiro, o tĂ­tulo de Marquesa de Santos e muita influĂȘncia na corte.

Para Leopoldina, foi o inĂ­cio de um perĂ­odo de humilhaçÔes pĂșblicas e atĂ© mesmo suspeita de agressĂ”es por parte do marido.

Nem mesmo o nascimento de outro filho homem em 1825 - Pedro de AlcĂąntara, que se tornaria o imperador Dom Pedro 2Âș - aproximou o casal. Domitila tambĂ©m teve filhos com o monarca, todos ganhando tĂ­tulos nobres e tambĂ©m educação na corte.
Deprimida e fraca pelas consequĂȘncias de um aborto sofrido dez dias antes, Leopoldina acabou morrendo aos 29 anos, em 11 de dezembro de 1826. Em uma carta escrita Ă  irmĂŁ Maria Luisa poucos antes, a imperatriz jĂĄ antecipava seu destino.

"Ouça o grito de uma vítima que pede de ti não vingança, mas piedade e socorro do amor fraternal para meus inocentes filhos, que órfãos vão ficar, em poder de si mesmos ou das pessoas que causaram minhas desgraças, reduzindo-me ao estado em que me encontro", escreveu.

Menos de dez anos depois do pomposo casamento em Viena, Leopoldina ajudou um paĂ­s a se transformar, mas nĂŁo conseguiu se libertar de uma relação pessoal desastrosa construĂ­da por interesses polĂ­ticos. Dom Pedro 1Âș abdicou do trono em 1831 para voltar a Portugal, deixando claro onde estavam suas raĂ­zes.

O Brasil imperial passou entĂŁo por um perĂ­odo conturbado atĂ© a coroação de Dom Pedro 2Âș, em 1841. Seu interesse pelos estudos e a personalidade tranquila e equilibrada certamente lembravam mais a mĂŁe do que o pai.


Com conteĂșdo BBC Brasil

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