Governo foi alertado em maio para falta de medicamentos, mas priorizou cloroquina

julho 24, 2020

O presidente Jair Bolsonaro é 1 entusiasta do uso da cloroquina e da hidroxicloroquina contra o coronavírus. O Brasil tem 4 milhÔes de comprimidos de cloroquina em estoque

PODER360

24.jul.2020 (sexta-feira) - 7h39

O governo foi alertado, em maio de 2020, de que o Brasil poderia ter falta de medicamentos usados nas UTIs em pacientes com covid-19 —doença causada pelo novo coronavĂ­rus. Mesmo assim, decidiu investir na compra de cloroquina e hidroxicloroquina (fĂĄrmacos que nĂŁo tĂȘm eficĂĄcia comprovada contra a doença) e, agora, tem mais de 4 milhĂ”es de comprimidos em estoque.

As informaçÔes estĂŁo em atas de reuniĂ”es do COE (ComitĂȘ de OperaçÔes de EmergĂȘncia), obtidas pelo jornal O Estado de S. Paulo. O comitĂȘ Ă© formado por tĂ©cnicos especializados em emergĂȘncias de saĂșde pĂșblica. Entre os orgĂŁos com representantes no COE estĂŁo o MinistĂ©rio da SaĂșde, a Opas (Organização Pan-Americana da SaĂșde), Anvisa (AgĂȘncia Nacional de VigilĂąncia SanitĂĄria) e o Instituto Evandro Chagas.

TĂ©cnicos do comitĂȘ alertaram em 25 de maio o MinistĂ©rio da SaĂșde dos perigos de comprar muitas unidades de cloroquina. O COE argumentou que o protocolo de saĂșde poderia mudar e o Brasil ficaria com esse estoque parado. Cinco dias antes, a pasta da saĂșde publicou documento orientando o uso da cloroquina mesmo em casos leves de covid-19. No mesmo dia da reuniĂŁo, a secretĂĄria de GestĂŁo do Trabalho e da Educação na SaĂșde, Mayra Pinheiro, disse que o governo estava “tranquilo e sereno” sobre a orientação para uso da cloroquina associada Ă  azitromicina, mesmo depois da OMS (Organização Mundial da SaĂșde) anunciar mais cedo a suspensĂŁo dos testes com o remĂ©dio.

O protocolo brasileiro não mudou, mas a ata de uma reunião de julho mostra que existem 4 milhÔes de comprimidos em estoque. Mais 1,4 milhão devem ser devolvidos ao governo por Estados que não quiseram receber o medicamento. Na reunião de 19 de junho, técnicos do COE demonstraram preocupação com o que fazer com a quantidade de cloroquina que seria enviada ao Brasil pelos Estados Unidos.

Na reuniĂŁo de 25 de maio, o COE ainda falou da preocupação com o baixo estoque de sedativos e analgĂ©sicos usados na intubação de pacientes. A pasta se juntou aos Estados e municĂ­pios para a compra desses medicamentos 1 mĂȘs depois desse alerta.
O MinistĂ©rio da SaĂșde disse ao EstadĂŁo que a Anvisa nĂŁo mostrou falta de insumo para fabricação de medicamentos e que a divulgação destes dados cabe Ă  agĂȘncia. Afirmou ainda que a prescrição de medicamentos Ă© de responsabilidade do mĂ©dico.

BOLSONARO DEFENDE CLOROQUINA

O presidente Jair Bolsonaro Ă© defensor do uso da cloroquina no tratamento da covid-19. Desde que foi confirmado que estava com a doença, em 7 de julho, ele diz que estĂĄ se tratando com o medicamento e afirma “que deu certo comigo”. O governo informou nesta 4ÂȘ (22.jul.2020) que o presidente testou positivo pela 3ÂȘ vez. O chefe do Planalto foi visto na tarde desta 5ÂȘ (23.jul) mostrando uma caixa da medicação para as emas criadas no PalĂĄcio do Alvorada, residĂȘncia oficial do presidente.

Bolsonaro aposta na cloroquina desde que a pandemia foi declarada. Ele orientou, em março, que o ExĂ©rcito aumentasse a produção do medicamento. Disse que o medicamento “estĂĄ dando certo em tudo quanto Ă© lugar”. O uso da cloroquina no tratamento da covid-19 foi tema de embate entre o presidente e os agora ex-ministros da saĂșde Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich.

Em julho, a A OMS (Organização Mundial da SaĂșde) decidiu de forma definitiva retirar a hidroxicloroquina de seus testes realizados em hospitais pelo mundo.

Com conteĂșdo Poder360

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