O governo Bolsonaro acabou, porra!

julho 15, 2020


O governo Bolsonaro foi pego desprevenido pelo vĂ­rus, afirma o colunista


Pandemia indicou caminho para o futuro e mostrou como o capitão é despreparado perante os desafios atuais, escreve Thomas Milz. Serå que teremos um presidente se arrastando até o fim do mandato?

A pandemia do novo coronavĂ­rus mostrou para onde o mundo vai. É preciso uma administração ĂĄgil e moderna, que aja conforme as necessidades do momento – e nĂŁo com base em crenças folclĂłricas e ideologias bizarras. NĂŁo hĂĄ tempo para terraplanismo em tempos de coronavĂ­rus! Na ĂĄrea econĂŽmica, as empresas vĂŁo ter que se posicionar de forma sustentĂĄvel – tanto social e economicamente como, e esse talvez seja o ponto mais importante, ambientalmente. NĂŁo Ă© hora de destruir florestas, portanto.

O governo Bolsonaro foi pego desprevenido pelo vírus. O plano de colocar a economia em trilhos neoliberais acabou. Em vez disso, o governo provavelmente promoverå um programa assistencialista, o Renda Båsica, de tamanho maior que o Bolsa Família petista. Fica difícil, também, seguir com os planos de privatizaçÔes, tendo em vista que instituiçÔes estatais, como o SUS e a Caixa, tiveram um papel fundamental para evitar danos maiores durante a pandemia.

Ficou claro tambĂ©m que colocar militares em pastas como a SaĂșde ou para fiscalizar as florestas nĂŁo resolve nada. No lugar dos quadros tĂ©cnicos prometidos, os militares deslocados para ĂĄreas alheias penam para mostrar resultados, enquanto milhares morrem e florestas se vĂŁo em chamas. (NĂŁo vamos pensar que os militares foram postos em lugares errados propositalmente, ok!)

A tempestade perfeita das pilhas de mortos pela covid-19, da economia em queda livre e do desastre ambiental cada vez mais evidente urge a um plano maior para o país. Mas não haverå tal plano com o atual governo, que não possui nem plano nem visão para o Brasil. Isso fica ainda mais claro quando se olha para a pasta da Educação. Não ter ideia do que fazer nessa årea deixa evidente a total falta de visão.

Em vez de moldar o futuro, Bolsonaro estå ocupado, desde que assumiu, um ano e meio atrås, com limpar a bagunça dos filhos e do próprio passado mal resolvido. Além das bravatas, ele não tem nada a oferecer.
Os problemas em encontrar quadros adequados para ĂĄreas como educação e saĂșde se explicam tambĂ©m pela falta de base social do atual governo. Grupos de WhatsApp podem atĂ© ganhar eleiçÔes, mas na hora de recrutar especialistas com uma noção do que fazer, as redes sociais nĂŁo oferecem ninguĂ©m. Na hora de nomear ministros, perfis falsos nĂŁo entregam nada.
Acontece que uma parte significativa do apoio digital prĂł-Bolsonaro jĂĄ se evaporou, nas Ășltimas semanas, de forma instantĂąnea perante as investigaçÔes promovidas pela Justiça e principalmente pelo STF. Os 300 do Brasil, que estava mais para 30, agora sĂŁo zero. Quanto mais Bolsonaro se entregar ao CentrĂŁo para se blindar de um impeachment, mais apoio da sua base mais radical deverĂĄ perder.

O colunista Thomas Milz

O presidente serå um lame duck (pato manco) jå na primeira metade do primeiro mandato. Enquanto Bolsonaro é bicado por uma ema, nos jardins presidenciais, seu vice, Hamilton Mourão, tenta tranquilizar investidores e empresårios. Teremos, provavelmente, um vice cada vez mais presente e um presidente cada vez mais recuado. Talvez Bolsonaro não caia, mas se arraste até o final do mandato. O governo dele talvez não tenha morrido, mas, de fato, jå acabou.

Enquanto governos social-democratas e o regime autoritĂĄrio chinĂȘs se mostraram capazes de domar o vĂ­rus, os lĂ­deres da direita raivosa se mostraram perdidos. Comprei recentemente uma camiseta com um desenho de Donald Trump e Bolsonaro, com o presidente brasileiro camuflado de Rambo e a frase "Make Brazil great again" estampada embaixo. Para me lembrar desse tempo esquisito.
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Thomas Milz saiu da casa de seus pais protestantes hĂĄ quase 20 anos e se mudou para o paĂ­s mais catĂłlico do mundo. Tem mestrado em CiĂȘncias PolĂ­ticas e HistĂłria da AmĂ©rica Latina e, hĂĄ 15 anos, trabalha como jornalista e fotĂłgrafo para veĂ­culos como o Bayerischer Rundfunk, a agĂȘncia de notĂ­cias KNA e o jornal Neue ZĂŒrcher Zeitung. É pai de uma menina nascida em 2012 em Salvador. Depois de uma dĂ©cada em SĂŁo Paulo, mora no Rio de Janeiro hĂĄ quatro anos.

Com conteĂșdo Deutsche Welle

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