Pesquisadores da Unifesp apresentam tratamento que pode ser a cura do HIV

julho 04, 2020


Diaz, em seu laboratório; ele e sua equipe deverão aguardar o resultado das biópsias dos pacientes vacinados para iniciar a segunda etapa da pesquisa, que consistirå em suspender os medicamentos e observar como reage o organismo daqueles voluntårios - Divulgação/Unifesp


A Universidade Federal de SĂŁo Paulo (Unufesp) realizou o primeiro estudo, em escala global, para testar um supertratamento em indivĂ­duos cronicamente infectados pelo vĂ­rus

Por VictĂłria OlĂ­mpio

04/07/2020 17:37 - Atualizado em 04/07/2020 17:58

A cura da sĂ­ndrome da imunodeficiĂȘncia adquirida (Aids) pode estar mais perto do que imaginamos! A Universidade Federal de SĂŁo Paulo (Unufesp) realizou o primeiro estudo, em escala global, para testar um supertratamento em indivĂ­duos cronicamente infectados pelo vĂ­rus da imunodeficiĂȘncia humana (HIV). A pesquisa estĂĄ sendo coordenada pelo infectologista Ricardo Sobhie Diaz, que Ă© uma das referĂȘncias mundiais no assunto.

De acordo com nota publicada pela Unifesp, Diaz Ă© diretor do LaboratĂłrio de Retrovirologia do Departamento de Medicina da Escola Paulista de Medicina (EPM/ Unifesp) - Campus SĂŁo Paulo.

A pesquisa contou com a participação de 30 voluntĂĄrios que possuem carga viral indetectĂĄvel, sob tratamento padrĂŁo, conforme o que Ă© atualmente preconizado: a combinação de trĂȘs tipos de antirretrovirais, mais conhecida como “coquetel”. Os voluntĂĄrios foram divididos em seis subgrupos, recebendo, cada um deles, diferentes combinaçÔes de remĂ©dios, alĂ©m do prĂłprio “coquetel”. 

Tratamento 

Diaz, e sua equipe, vem trabalhando em duas frentes para a cura da doença: uma utilizando medicamentos e substĂąncias que matam o vĂ­rus no momento da replicação e eliminam as cĂ©lulas em que o HIV fica adormecido (latĂȘncia); e a outra desenvolve uma vacina que leva o sistema imunolĂłgico a reagir e eliminar as cĂ©lulas infectadas nas quais o fĂĄrmaco nĂŁo Ă© capaz de chegar.

Os integrantes do subgrupo que apresentaram melhores resultados receberam mais dois antirretrovirais: o dolutegravir, a droga mais forte atualmente disponível no mercado; e o maraviroc, substùncia que força o vírus, antes escondido, a aparecer.

Outras duas substĂąncias tambĂ©m foram incluĂ­das, que potencializam o efeito dos medicamentos: a nicotinamida – uma das duas formas da vitamina B3, que mostrou ser capaz de impedir que o HIV se escondesse nas cĂ©lulas; e a auranofina – um antirreumĂĄtico, tambĂ©m conhecido como sal de ouro, que deixou de ser utilizado hĂĄ muitos anos para tratar a artrite e outras doenças reumatolĂłgicas. A auranofina revelou potencial para encontrar a cĂ©lula infectada e levĂĄ-la ao suicĂ­dio. 

O infectologista explicou que os testes in vitro, in vivo (em animais) e, agora, em humanos confirmam que a nicotinamida Ă© mais eficiente contra a latĂȘncia quando comparada ao potencial de dois medicamentos administrados para esse fim e testados conjuntamente.

Mas apesar da descoberta dessas substùncias (a nicotinamida e a auranofina) para a redução expressiva da carga viral, ainda seria necessårio algo que ajudasse a imunidade dos pacientes contra o vírus. Dessa maneira, os pesquisadores desenvolveram uma vacina de células dendríticas, que conseguiu ensinar o organismo do paciente a encontrar as células infectadas e destruir uma a uma, eliminando completamente o vírus HIV.

A vacina de células dendríticas é extremamente personalizada jå que é fabricada a partir de monócitos (células de defesa) e peptídeos (biomoléculas formadas pela ligação de dois ou mais aminoåcidos) do vírus do próprio paciente.

EstĂ­mulo

Segundo Diaz, as cĂ©lulas dendrĂ­ticas sĂŁo importantes unidades funcionais no sistema imunolĂłgico pois tem função Ă© capturar microrganismos prejudiciais ao organismo para, em seguida, apresentĂĄ-los aos linfĂłcitos T CD8. Quando apresentados, os linfĂłcitos participam do controle de infecçÔes, aprendem a encontrar e matar o HIV presente em regiĂ”es do corpo – chamadas pelos especialistas de “santuĂĄrios” – aonde os antirretrovirais nĂŁo chegam ou, quando chegam, atuam de forma muito modesta, como cĂ©rebro, intestinos, ovĂĄrios e testĂ­culos.

Seis dos pacientes participantes receberam o supertratamento, mas ainda aguardam os resultados finais da terceira dose da vacina. “Somente apĂłs as anĂĄlises de sangue e das biĂłpsias do intestino reto desses pacientes vacinados Ă© que partiremos para o desafio final: suspender todos os medicamentos de um deles e acompanhar como seu organismo irĂĄ reagir ao longo dos meses ou, atĂ© mesmo, dos anos”, conclui.

“Caso o tempo nos mostre que o vĂ­rus nĂŁo voltou, aĂ­ sim, poderemos falar em cura.”

No perĂ­odo sem conclusĂŁo dos resultados, o infectologista alerta: “apesar do avanço no tratamento e controle do HIV, a infecção por esse vĂ­rus ainda Ă© a pior notĂ­cia que podemos dar ao paciente em termos de doenças sexualmente transmissĂ­veis”, declara. “A pessoa com HIV, mesmo com carga viral indetectĂĄvel, passa por inĂșmeros processos inflamatĂłrios devido aos efeitos colaterais dos medicamentos."

Segundo o coordenador, o uso de preservativos durante as relaçÔes sexuais garante a proteção contra o HIV, alĂ©m de outras doenças para quem nĂŁo tem o vĂ­rus, mas principalmente para quem jĂĄ o tem. “Atualmente, o Centro de Controle de Doenças (CDC) dos Estados Unidos afirma que pessoas com carga viral indetectĂĄvel nĂŁo transmitem HIV. A falta de proteção pode, porĂ©m, acarretar ao indivĂ­duo com o vĂ­rus controlado a reinfecção por um tipo diferente de vĂ­rus HIV ou por outro mais resistente.”

Aids no mundo

A doença do sistema imunolĂłgico, causada pelo vĂ­rus da imunodeficiĂȘncia humana (HIV), torna uma pessoa mais propensa Ă s doenças oportunistas e, atĂ© mesmo, ao cĂąncer do que outra, cujo sistema imunolĂłgico esteja saudĂĄvel. As principais maneiras de transmissĂŁo sĂŁo as relaçÔes sexuais desprotegidas, as transfusĂ”es com sangue contaminado, o compartilhamento de seringas entre usuĂĄrios de drogas injetĂĄveis e a disseminação de mĂŁe para filho, durante a gravidez, parto ou amamentação.

Mesmo com a evolução no tratamento e das campanhas preventivas, os nĂșmeros sobre a doença mostram que a aids ainda Ă© um grave problema de saĂșde pĂșblica global. Dados apresentados pelo Programa Conjunto das NaçÔes Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) mostram que 36,7 milhĂ”es de pessoas em todo o mundo viviam com HIV em 2016 e quase dois milhĂ”es seriam infectados no mesmo ano.


O Ă­nicio da epidemia ocorreu na dĂ©cada de 1980, onde cerca de 35 milhĂ”es de indivĂ­duos perderam a vida por causas relacionadas Ă  aids. No Brasil, o MinistĂ©rio da SaĂșde (MS) contabilizou, atĂ© junho de 2016, quase 843 mil casos da doença, cuja maioria era constituĂ­da por homens (65,1%); o paĂ­s Ă© o que mais concentra novos casos de infecçÔes (49%) na AmĂ©rica Latina, segundo a Unaids.

Um terço das novas infecçÔes ocorre em jovens de 15 a 24 anos.


* Com informaçÔes da Unifesp

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