Barroso: 'Temos um presidente que defende a ditadura e a tortura'

agosto 26, 2020


O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) LuĂ­s Roberto Barroso disse nesta quarta-feira (26) que a democracia brasileira Ă© resiliente, pontuando que o paĂ­s tem “um presidente que defende a ditadura e a tortura e ninguĂ©m jamais considerou alguma solução diferente do respeito Ă  igualdade constitucional”. A fala foi proferida em transmissĂŁo ao vivo promovida pela Fundação Fernando Henrique Cardoso, intitulada “Respostas constitucionais a retrocessos na democracia”.

"Nós passamos por dois impeachments de dois presidentes eleitos pelo voto popular, tivemos tempos de hiperinflação, recessão, alto desemprego, escùndalos de corrupção dramåticos, tivemos governos de centro, esquerda e direita e um presidente que defende a ditadura e exalta a tortura, entre outras vicissitudes, e ninguém jamais considerou uma solução diferente do que o respeito pela legalidade constitucional", afirmou.

Barroso elogiou a imprensa, dizendo que “embora atacada pelo presidente, a imprensa brasileira Ă© plural e independente”. “E crĂ­tica ao governo - deste, devo acrescentar, e de todos os anteriores. Uma coisa que eu acho que contribui com essa resiliĂȘncia da democracia brasileira Ă© uma imprensa livre, independente e poderosa que nĂłs temos no Brasil”, afirmou.

Ainda analisando a força da democracia brasileira, o ministro disse: “Frente Ă s manifestaçÔes retĂłricas autoritĂĄrias, tanto pelo presidente ou por pessoas prĂłximas a ele, inclusive evocando a Ă©poca da ditadura militar, a sociedade civil reagiu a isto com vigor, condenando os ataques Ă s instituiçÔes e levando os autores destes ataques a retirarem-nos. Ou seja, a reação brasileira Ă quilo que ela viu como ameaças, embora elas fossem apenas retĂłricas, levou a reaçÔes muito vigorosas, e eu acho que mostrou a resiliĂȘncia da democracia brasileira”.

O ministro afirmou que a democracia foi o regime que venceu no sĂ©culo 20, perante outros ideais, mas que ultimamente algo parece estar dando errado. “Uma onda liberal varreu o mundo, promovendo o que alguns autores tĂȘm chamado de recessĂŁo democrĂĄtica”, disse. Para Barroso, existem trĂȘs tipos diferentes de fenĂŽmeno ocorrendo simultaneamente: populismo, conservadorismo radical e autoritarismo. “Quando eles se juntam, Ă© aĂ­ que o problema começa", ressaltou.

Uma das estratĂ©gias do populismo, segundo ele, Ă© ignorar as instituiçÔes intermediĂĄrias, que fazem o trabalho de mediação do contato com as pessoas, citando parlamentares, a imprensa e entidades da sociedade civil. Outra estratĂ©gia, conforme Barroso, Ă© o uso de redes sociais para estabelecer uma comunicação direta com as pessoas. A terceira, segundo ele, Ă© o ataque Ă s instituiçÔes que fazem um trabalho de controle ao vigiar os poderes e fazer o controle do exercĂ­cio do poder, citando o STF como exemplo. 

O ministro falou, ainda, sobre a atuação do Supremo durante a pandemia do novo coronavírus, frisando que os magistrados restringiram o poder do presidente, "defendendo o federalismo, o poder dos estados e dos governos locais".

Barroso citou também a atuação do STF contra grupos que disseminam informaçÔes falsas nas redes sociais. "O tribunal busca conter ameaças que são feitas para pessoas e instituiçÔes desses grupos hierårquicos e financiados que disseminam as chamadas notícias falsas, ou discurso de ódio ou campanha de desinformação, o que é um verdadeiro perigo à democracia em todo o mundo", disse.

Para ele, a resiliĂȘncia do sistema democrĂĄtico brasileiro nĂŁo significa que as instituiçÔes nĂŁo devam ficar em alerta. "Mas acho que estamos cruzando esses tempos difĂ­ceis preservando a integridade dos principais elementos da democracia", ressaltou.


Com conteĂșdo Correio Braziliense

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