1147: A Sangrenta tomada de Lisboa dos Mouros

setembro 24, 2020


ApĂłs trĂȘs sĂ©culos de saques e devastação por muitos invasores , a antiga cidade ibĂ©rica de Ulixbona (a futura Lisboa) nĂŁo era mais de que uma pequena vila no inicio do sĂ©culo VIII. No ano da conquista islĂąmica em 711, a parte ocidental da PenĂ­nsula fora tomada por Abdul Aziz, um dos filhos do conquistador berbere Tariq Ibn Ziyad, e a cidade junto com ela 714.

Os muçulmanos renomearam-a de “al-Us̲h̲bĆ«na”, e a transformaram em um grande posto comercial e administrativo do “Al-Gharb” (futuro “Algarve”), a provĂ­ncia mais ocidental do mundo muçulmano. Sob julgo islĂąmico, Lisboa passou a intercambiar comercialmente com todo o MediterrĂąneo islamizado e alĂ©m, e produtos vinham particularmente do Marrocos, TunĂ­sia, Egito, SĂ­ria e Iraque. De acordo com fontes contemporĂąneas, a cidade tornou-se uma das maiores da Europa, muito maior que Paris ou Londres que no mesmo perĂ­odo nĂŁo tinham muito mais de que cinco ou dez mil habitantes cada. 

O cronista muçulmano Almunime Al-Himiar descreve a Lisboa islùmica com requinte :


“É uma cidade Ă  beira-mar, com ondas que se quebram de encontro Ă s muralhas, admirĂĄveis e de boa construção. A parte ocidental da cidade Ă© encimada por arcos sobrepostos assentes em colunas de mĂĄrmore apoiadas em envasamentos de mĂĄrmore. Por natureza, a cidade Ă© belĂ­ssima”.


A maioria dos habitantes hispano-romanos da cidade adotaram a lĂ­ngua ĂĄrabe e a religiĂŁo islĂąmica dos conquistadores muçulmanos, que, apesar de uma minoria entre a população, se tornaram a nova elite. Os membros da população cristĂŁ moçårabe tinham seu prĂłprio bispo e eram falantes de ĂĄrabe, ou uma variedade de latim vulgar. Falar a lĂ­ngua moçårabe, uma lĂ­ngua romĂąntica semelhante Ă  falada na Galiza e nas provĂ­ncias do norte, foi tolerada pelas autoridades muçulmanas, como um dos direitos de residĂȘncia que era permitido aos dhimmi (protegidos). Esta comunidade moçårabe, que seguia os ritos hereditĂĄrios dos cristĂŁos arianos e os costumes dos visigodos, geralmente era condenada e perseguida pelos seus compatriotas catĂłlicos romanos, mas possuĂ­am liberdade de culto nas regiĂ”es da penĂ­nsula de controle muçulmano.

A comunidade judaica, que havia existido desde os primeiros dias da cidade, tornou-se mais influente Ă  medida em que mais judeus se estabeleceram como comerciantes e ganhavam a vantagem financeira de viver no centro comercial emergente da cidade. AlĂ©m de sal, peixe e cavalos, nela eram vendidas raras especiarias do Levante, ervas medicinais, frutas secas, mel e peles. Os saqaliba. escravos eslavos da Europa Oriental que serviram de mercenĂĄrios, juntaram-se Ă  população e tambĂ©m adquiriram uma posição proeminente na sociedade islĂąmica lisboeta. 

Lisboa tornou-se parte do califado omĂ­ada baseado em Damasco, na SĂ­ria, logo apĂłs o inĂ­cio do domĂ­nio muçulmano na IbĂ©ria. Uma rebeliĂŁo em curso (740-743) da elite berbere contra os ĂĄrabes omĂ­adas se espalhou pelo Magreb (Norte de África) e pelo Estreito de Gibraltar para al-Andalus, mas precisava de reforços para derrotar o califado. Quando a dinastia omĂ­ada foi finalmente derrubada pela revolução abĂĄssida em 750, Abd al-Rahman I, um prĂ­ncipe omĂ­ada de mĂŁe berbere, fugiu da capital em Damasco escapando do massacre de sua famĂ­lia para o norte da África, e de lĂĄ para al-Andalus, posteriormente ganhando independĂȘncia do novo califado abĂĄssida alguns anos depois. LĂĄ, na tĂŁo longĂ­nqua Europa Ocidental ele estabeleceu o Emirado OmĂ­ada de CĂłrdoba e Lisboa ficou sob seu domĂ­nio.

Após o desmantelamento do Califado Omíada, no Período das Taifas, o escravo eslavo Sabur al-Saqlabi (Sabur, o Eslavo) se tornou, durante o que mais tarde seria conhecido como régulo eslavo, governante da Taifa de Badajoz, e portanto, de Lisboa. Ele era filho de Sabur al-Khatib, um eslavo que havia estado ao serviço do califa omíada al-Hakam II. Seus filhos Abd al-Aziz ibn Sabur e Abd al-Malik ibn Sabur governaram sucessivamente como emires da Taifa de Lisboa.

Al-UshbĆ«na foi renovada e reconstruĂ­da no costumeiro padrĂŁo das cidades do Oriente MĂ©dio: muralhas altas cercavam os edifĂ­cios principais, uma grande mesquita, um castelo no topo da colina (que, em forma modificada, se tornou o Castelo de SĂŁo Jorge), uma medina ou centro urbano, e um alcĂĄcer, ou palĂĄcio da fortaleza para o governador. O bairro de Alfama cresceu ao lado do nĂșcleo urbano original. A cidadela de al-Madan, agora a cidade de Almada, foi construĂ­da na margem sul do Tejo para proteger o porto.

Os årabes e berberes introduziram novos métodos de agricultura irrigada que eram muito mais produtivos que o antigo sistema de irrigação romano. As åguas do Tejo e seus afluentes foram utilizadas para irrigar a terra no verão, produzindo vårias culturas por ano de vegetais, incluindo alface e laranja.

Com o inĂ­cio da Reconquista, a opulenta al-UshbĆ«na tornou-se alvo de ataques por parte dos cristĂŁos do norte, que saquearam a cidade primeiro em 796 e em outras ocasiĂ”es nos anos seguintes, liderados pelo rei Alfonso II das AstĂșrias, mas a fronteira entre muçulmanos e cristĂŁos na IbĂ©ria permaneceu no norte do rio Douro. Em 844 vĂĄrias dezenas de barcos vikings cruzaram o Mar da Palha no estuĂĄrio do Tejo. E apĂłs um cerco de 13 dias, os escandinavos conquistaram a cidade e o territĂłrio circundante, mas acabaram recuando diante da resistĂȘncia contĂ­nua da população da cidade liderada por seu governador, Wahb Allah ibn Hazm. Um novo ataque mal sucedido pelos vikings se seguiu em 966.

No inĂ­cio do sĂ©culo X, vĂĄrias seitas islĂąmicas surgiram em Al-UshbĆ«na e converteram a população hispano-romana. Essas seitas eram uma forma de organização polĂ­tica em revolta contra o sistema hierĂĄrquico dos conquistadores muçulmanos que institucionalizavam os obstĂĄculos Ă  sua mobilidade social. A elite, formada por famĂ­lias que alegavam descendĂȘncia do prĂłprio profeta Muhammad ocupavam o topo da pirĂąmide social, seguidos pelos ĂĄrabes de sangue puro, depois os berberes, e, finalmente, os muçulmanos arabizados e os hispano-romanos. 

VĂĄrios lĂ­deres hispano-romanos subiram ao poder, incluindo Ali ibn Ashra e outros, que alegavam ser profetas ou descendentes de ‘AlÄ« ibn AbÄ« áčŹÄlib, primo do profeta Muhammad os quais xiitas (que eram uma forte corrente na Ă©poca) consideram seu primeiro imĂŁ. Com seus aliados em outras cidades, eles iniciaram guerras civis contra as tropas ĂĄrabes sunitas. Em meio a estes distĂșrbios polĂ­ticos os moçårabes cristĂŁos e os judeus passaram por privaçÔes e ataques, Ă s vezes sofrendo perseguiçÔes nos distĂșrbios civis que, embora lamentĂĄveis aos olhos modernos, seriam um reflexo pĂĄlido do que os catĂłlicos fariam nĂŁo sĂł contra os muçulmanos e os judeus, mas tambĂ©m contra os prĂłprios cristĂŁos quando reconquistassem a terra.

O rei das AstĂșrias, Ordonho I, tomou a cidade em 851, assim como Alfonso VI de LeĂŁo faria em 1093, quando al-Mutawakkil de Badajoz entregou Al-UshbĆ«na, ShantarÄ«n (SantarĂ©m) e Shintra (Sintra) a Alfonso, mas logo o territĂłrio foi retomado pelos almorĂĄvidas em 1094. 

Com a fragmentação do califado de CĂłrdoba por volta do ano 1000 como resultado de disputas politicas internas, os lĂ­deres notĂĄveis de al-UshbĆ«na oscilavam entre a obediĂȘncia Ă  Taifa de Badajoz e a de Ishbiliya (Sevilha) e conseguiram manobrar politicamente para obter uma autonomia considerĂĄvel. Esta situação durou pouco tempo atĂ© que o retorno da divisĂŁo da Taifa trouxe autonomia e prosperidade para al-UshbĆ«na. Em 1111, um novo califado pan-hispĂąnico foi estabelecido apĂłs uma invasĂŁo almorĂĄvida vinda dos desertos do Marrocos liderada pelo califa Ali ibn Yusuf. Seu general e sobrinho, Zir ibn Abi Bakr, forçou Lisboa a render-se em 1111 depois de diversas tentativas mal sucedidas, e mais tarde foi parado na regiĂŁo de Tomar por Gualdim Pais, GrĂŁo Mestre da Ordem dos TemplĂĄrios. Este novo califado nĂŁo durou muito, e logo os tempos das taifas divididas e da poderosa al-UshbĆ«na voltaram. 

Famosa por sua opulĂȘncia, a captura de Al-UshbĆ«na traria ao reino de Portugal grande prestĂ­gio. Afonso I e suas forças cristĂŁs primeiro tentaram conquistar a cidade em 1137, mas nĂŁo conseguiram vencer suas muralhas. Em 1140 cruzados que passavam pela regiĂŁo, lançaram outro ataque mal sucedido. De acordo com o cronista anglo-normando, em junho e julho de 1147, uma força mais numerosa de cruzados, constituĂ­da por 164 barcos de cruzados ingleses, normados e renos, partiram de Dartmouth, na Inglaterra, para a Terra Santa. 

O mau tempo obrigou os navios a pararem na costa portuguesa no Porto, onde foram convencidos de participar de um novo assalto à cidade. Enquanto as forças portuguesas atacavam por terra, os cruzados, atraídos por promessas de saque para serem levados e prisioneiros a serem escravizados, montaram suas måquinas de cerco, entre elas catapultas e torres, e atacaram tanto por mar como por terra, impedindo a chegada de reforços do sul. Nos primeiros encontros, os muçulmanos mataram muitos dos invasores; Isso afetou a moral dos cruzados e ocasionou vårios conflitos sangrentos entre os vårios contingentes cristãos que tentavam invadir a cidade.

Depois de muitas tentativas anteriores, o cavaleiro portuguĂȘs Martim Moniz liderou um ataque aos portĂ”es do castelo e, quando viu que os muçulmanos iriam fechĂĄ-los, bloqueou a porta com seu prĂłprio corpo, permitindo que seus companheiros entrassem, sendo esmagado no processo. Com o sucesso do assalto dos cruzados nas muralhas da cidade com mĂĄquinas de cerco, os muçulmanos capitularam em 22 de outubro. De acordo com um relato do padre Raol dirigido a Osbert de Bawdsley (Osbernus), alemĂŁes de ColĂŽnia e flamengos violaram seus juramentos de ordem ao rei Dom Afonso Henriques depois de entrar na cidade, saqueando-a. Esses cruzados se comportaram de maneira terrivel, roubando o quanto podiam dos muçulmanos e cristĂŁos moçårabes indiscriminadamente, estuprando virgens e atĂ© mesmo cortando a garganta do idoso bispo moçårabe de Lisboa, que atĂ© entĂŁo liderava pacificamente a comunidade cristĂŁ da cidade, como houvera sido sob seus antecessores. Depois, uma epidemia de peste matou milhares entre as populaçÔes de cristĂŁos moçårabes e muçulmanos, que foram forçados a deixar a cidade em levas.

Este foi o fim de al-Us̲h̲bĆ«na.

Bibliografia:

-Barbosa, Pedro Gomes (2004), 1147: Conquista de Lisboa aos Mouros, Lisboa: Tribuna da HistĂłria.

-Martins Miguel Gomes ( 2017), 1147: A Conquista de Lisboa, Esfera dos Livros

-Runciman, Steven (1952). A History of the Crusades, vol. II: The Kingdom of Jerusalem and the Frankish East, 1100–1187. New York: Cambridge University Press.

-M. Clemente, “Lisboa, Diocese e patriarcado de”, DicionĂĄrio de HistĂłria Religiosa de Portugal, cit., vol. 3, 5.

-Alice Vieira, AntĂłnio Pedro Ferreira. Esta Lisboa pg 14

-AntĂłnio Rei, IECM / FCSH – UNL GHARB AL-ANDALUS (711 – 1250)

-Slavs of Muslim Spain: http://michalw.narod.ru/SlavicSpain.html

-“Al Usbuna: Lisboa islĂąmica, 711-1147” in HistĂłria de Lisboa- Tempos fortes / Coord. JosĂ© Manuel Garcia. Lisboa: CĂąmara Municipal. GEO, 2009, pp. 17-19.

-Brian A. Catlos, Kingdoms of Faith: A New History of Islamic Spain

– Hugh Kennedy, Muslim Spain and Portugal


Com conteĂșdo HistĂłria IslĂąmica: www.historiaislamica.com.br

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