MP no TCU quer apurar desvio de finalidade em programa de Michelle e repasses a ONGs
outubro 01, 20201Âș.out.2020 Ă s 18h46
Constança Rezende
BRASĂLIA
O MinistĂ©rio PĂșblico junto ao TCU (Tribunal de Contas da UniĂŁo) quer apurar como a doação de R$ 7,5 milhĂ”es feita ao governo federal pela empresa de alimentos Marfrig para a compra de testes rĂĄpidos de Covid-19 foi parar no programa beneficente liderado pela primeira-dama, Michelle Bolsonaro, o PĂĄtria VoluntĂĄria.
Em documento enviado Ă presidĂȘncia do tribunal, o subprocurador-geral Lucas Furtado pede abertura de investigação com base em reportagem da Folha publicada nesta quinta-feira (1) revelando o caso.
Segundo o procurador, o tema “reclama a obrigatĂłria atuação do Tribunal de Contas da UniĂŁo”, “uma vez que esses fatos indicam afronta aos princĂpios administrativos da legalidade, da impessoalidade e da moralidade".
Ele também pede que sejam investigados os repasses feitos a instituiçÔes missionårias evangélicas, mostrados pelo jornal nesta quarta-feira (30).
Segundo a reportagem, o programa repassou, sem edital de concorrĂȘncia, dinheiro de doaçÔes privadas a instituiçÔes missionĂĄrias evangĂ©licas aliadas da ministra Damares Alves (Mulher, FamĂlia e Direitos Humanos)..
Beneficiada com R$ 240 mil, a Associação de MissÔes Transculturais Brasileiras (AMTB) foi indicada por Damares para receber os recursos, segundo ata de uma reunião do conselho do programa.
O procurador acrescentou que o direcionamento de recursos a determinadas instituiçÔes missionĂĄrias religiosas viola o princĂpio da laicidade do Estado brasileiro, estabelecido pelo artigo 5Âș da Constituição.
“Ao admitir a inviolabilidade da liberdade de consciĂȘncia e de crença, a Constituição impĂŽs ao Estado a obrigação de garantir, a todos os brasileiros, o exercĂcio dessa liberdade, independentemente de suas prĂłprias convicçÔes”, disse.
Segundo o procurador junto ao TCU, a aplicação dos recursos no Ăąmbito do programa deveria ocorrer “segundo critĂ©rios objetivos, tĂ©cnicos e isonĂŽmicos, e nĂŁo de forma a privilegiar determinadas instituiçÔes”.
AlĂ©m disso, diz que o recebimento de doaçÔes de bens mĂłveis e de serviços pelos ĂłrgĂŁos e pelas entidades da administração pĂșblica federal direta, autĂĄrquica e fundacional Ă© regulado pelo decreto 9.764, de 11/4/2019.
“Assim, a apuração da irregularidade denunciada pela Folha de S.Paulo reclama que a doação efetuada pela Marfrig seja examinada Ă luz do referido decreto, principalmente quanto a eventuais ĂŽnus ou encargos de finalidade impostos pela empresa doadora na formalização da doação”, disse.
O procurador tambĂ©m escreveu em sua representação que, caso a Marfrig e o governo federal tenham formalizado a especĂfica destinação dos recursos doados e eles tenham sido aplicados em fim diverso do que foi pactuado, “caracterizado restarĂĄ o desvio de finalidade”.
“DaĂ, a necessidade de se proceder Ă apuração dos prejuĂzos e das responsabilidades”, disse.
Ainda de acordo com Furtado, a aplicação desses recursos no Ăąmbito do programa PĂĄtria SolidĂĄria deveria ocorrer “segundo critĂ©rios objetivos, tĂ©cnicos e isonĂŽmicos, e nĂŁo de forma a privilegiar determinadas instituiçÔes”.
No dia 23 de março, a Marfrig, um dos maiores frigorĂficos de carne bovina do paĂs, anunciou que doaria esse valor de R$ 7,5 milhĂ”es ao MinistĂ©rio da SaĂșde para a compra de 100 mil testes rĂĄpidos do novo coronavĂrus.
Naquele momento, o Brasil enfrentava as primeiras semanas da pandemia e a falta desse material, enquanto a OMS (Organização Mundial da SaĂșde) orientava testar a população.
Dois meses depois, no dia 20 de maio, segundo a empresa disse por escrito Ă Folha, a Casa Civil da PresidĂȘncia da RepĂșblica informou que o dinheiro seria usado "com fim especĂfico de aquisição e aplicação de testes de Covid-19".
No dia 1Âș de julho, no entanto, com o dinheiro jĂĄ transferido, o governo Bolsonaro consultou a Marfrig sobre a possibilidade de utilizar a verba nĂŁo mais nos testes, mas em outras açÔes de combate Ă pandemia. Os recursos foram entĂŁo parar no projeto Arrecadação SolidĂĄria, vinculado ao PĂĄtria, de Michelle Bolsonaro.
A Casa Civil ainda nĂŁo se manifestou sobre o remanejamento da doação para o programa. JĂĄ a assessoria de Damares justificou o repasse Ă AMTB afirmando que esta "Ă© uma entidade que reĂșne mais de 50 instituiçÔes com capilaridade em todo o territĂłrio nacional para apoiar as açÔes do programa PĂĄtria VoluntĂĄria”.
“Desta forma, o MinistĂ©rio da Mulher, da FamĂlia e dos Direitos Humanos (MMFDH) entende que o atendimento aos povos indĂgenas, comunidades quilombolas e ribeirinhas serĂĄ efetivo e de qualidade com a parceria com entidades com esta finalidade, como ocorre com as Santas Casas de saĂșde em todo o Brasil”, disse.
“O repasse de recursos pela Fundação Banco do Brasil, portanto, deve levar em consideração o critĂ©rio de efetividade das açÔes, no espectro mais amplo possĂvel que o PĂĄtria VoluntĂĄria se destina, critĂ©rio este que o MMFDH vem se pautando na indicação das entidades capazes de apoiar e desenvolver os objetivos do programa”, completou.
Com conteĂșdo Folha de SĂŁo Paulo

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