Como Portugal comprou o Nordeste dos holandeses por R$ 3 bi
fevereiro 16, 2021
Quadro do pintor brasileiro Victor Meirelles de Lima retrata Batalha dos Guararapes (1648/1649), que encerrou perĂodo do domĂnio holandĂȘs no Brasil
Mesmo depois de terem sido derrotados, os holandeses receberam dos portugueses o equivalente a R$ 3 bilhÔes em valores atuais para devolver o Nordeste ao controle lusitano no século 17.
O pagamento ─ que envolveu dinheiro, cessĂ”es territoriais na Ăndia e o controle sobre o comĂ©rcio do chamado Sal de SetĂșbal – correspondeu Ă Ă©poca a 63 toneladas de ouro, como conta Evaldo Cabral de Mello, historiador e imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), no livro O negĂłcio do Brasil, que estĂĄ sendo relançado em uma nova edição ilustrada pela Editora Capivara, de Pedro Correia do Lago, ex-presidente da Fundação Biblioteca Nacional. A edição original foi lançada em 1998.
Em valores atuais, o montante equivaleria a 480 milhÔes de libras esterlinas (ou cerca de R$ 3 bilhÔes). O cålculo foi feito à pedido da BBC Brasil por Sam Williamson, professor de economia da Universidade de Illinois, em Chicago, nos Estados Unidos, e cofundador do Measuring Worth, ferramenta interativa que permite comparar o poder de compra do dinheiro ao longo da história.
"Esta foi a solução diplomåtica para um conflito militar. O pagamento fez parte da negociação de paz. O que não quer dizer que a guerra não tenha sido necessåria", afirmou Cabral de Mello à BBC Brasil.
'Investimento'
Os holandeses ocuparam o Nordeste por cerca de 30 anos, de 1630 a 1654, em uma årea que se estendia do atual Estado de Alagoas ao Estado do Cearå. Eles também chegaram a conquistar partes da Bahia e do Maranhão, mas por pouco tempo.
Por trĂĄs das invasĂ”es, havia o interesse sobre o controle do comĂ©rcio e comercialização do açĂșcar.
Isso porque, como conta Cabral de Mello, antes mesmo de ocupar o Nordeste, os holandeses jĂĄ atuavam na economia brasileira com o apoio de Portugal, processando e refinando a cana-de-açĂșcar brasileira.
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| Gravura holandesa retrata o cerco a Olinda em 1630 |
"Quando o reino portuguĂȘs foi incorporado pela Espanha, essa parceria acabou. Os espanhĂłis romperam esse acordo, que rendia altos lucros aos holandeses. AlĂ©m disso, a relação entre os holandeses e os espanhĂłis jĂĄ nĂŁo era boa, jĂĄ que a Holanda havia se tornado independente do impĂ©rio espanhol", diz o historiador.
Cabral de Mello faz alusĂŁo a um momento histĂłrico em particular, quando a Holanda, que atĂ© entĂŁo fazia parte do impĂ©rio espanhol na Europa, obteve sua independĂȘncia, em 1581.
A emancipação nĂŁo foi bem recebida pelos espanhĂłis que, entre outras medidas, encerraram a parceria que os holandeses tinham com os portugueses no processamento e refino da cana-de-açĂșcar no Brasil, dado que, naquela ocasiĂŁo, Portugal havia se tornado parte do reino espanhol.
Nesse sentido, a invasão do Brasil pelos holandeses foi uma espécie de "revanche" contra a Espanha.
Durante o perĂodo em que ocuparam parte do Nordeste, os holandeses foram responsĂĄveis por inĂșmeras mudanças importantes, inclusive urbanĂsticas, principalmente durante o governo de Johan Maurits von Nassau-Siegen, ou MaurĂcio de Nassau.
Com o intuito de transformar Recife na "capital das Américas", Nassau investiu em grandes reformas, tornando-a uma cidade cosmopolita. Apesar de benquisto, ele acabou acusado por improbidade administrativa e foi forçado a voltar à Europa em 1644.
ApĂłs o fim da administração Nassau, a Holanda passou a exigir a liquidação das dĂvidas dos senhores de engenho inadimplentes, o que levou Ă Insurreição Pernambucana e que culminaria, mais tarde, com a expulsĂŁo dos holandeses do Brasil.
'Sem heroĂsmo'
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| Quadro do pintor espanhol Juan Bautista MaĂno retrata reconquista de Salvador pelas tropas hispano-portuguesas (1635) |
Naquele ano, Portugal jĂĄ havia se separado da Espanha, mas demorou para enviar soldados para retomar o Nordeste. A regiĂŁo sĂł foi reintegrada em janeiro de 1654.
Cabral de Mello, que Ă© especialista no perĂodo de domĂnio holandĂȘs, diz que a tese de que os holandeses foram expulsos pela valentia dos portugueses, Ăndios e negros "nĂŁo Ă© completa".
"Os senhores de engenho locais financiaram a luta pela expulsĂŁo dos holandeses, jĂĄ que deviam mundos e fundos Ă Companhia das Ăndias Ocidentais, que lhes havia emprestado dinheiro. Eles, no entanto, nĂŁo tinham como pagar a dĂvida", explica o historiador.
"Os holandeses acabaram derrotados, mas nĂŁo sem antes pressionar Portugal pelo pagamento dessa dĂvida, inclusive chegando a bloquear o Tejo (Rio Tejo). O pagamento nĂŁo foi feito em ouro, mas um observador da Ă©poca fez a correspondĂȘncia para o metal precioso".
"Portugal teve de pagar 10 mil cruzados (moeda da Ă©poca) aos holandeses. TambĂ©m fez parte do acordo a transferĂȘncia do controle de duas possessĂ”es territoriais portuguesas na Ăndia ─ Cranganor e Cochim ─ e o monopĂłlio do comĂ©rcio do Sal de SetĂșbal (matĂ©ria-prima importante para a indĂșstria holandesa para a salga do arenque)".
Com conteĂșdo BBC Brasil


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