Por que o Nordeste registra a menor taxa de mortalidade pela covid em 2021

abril 18, 2021

Morador de SĂŁo LuĂ­s-MA apresenta permissĂŁo para circular de automĂłvel durante lockdown por causa da covid-19 Imagem: BinĂ© Morais/AgĂȘncia SĂŁo LuĂ­s

Em  2020, quando a pandemia começou a se alastrar no paĂ­s, o Nordeste lançou um comitĂȘ cientĂ­fico para ajudar os governos a tomarem medidas de prevenção contra a covid-19. Lançaram campanhas em massa alertando sobre a necessidade de distanciamento, uso de mĂĄscara e ĂĄlcool em gel. A regiĂŁo tambĂ©m foi a primeira a ter uma metrĂłpole a realizar um lockdown —no caso, SĂŁo LuĂ­s.

Com medidas mais rĂ­gidas e uma comunicação mais forte do que em outras regiĂ”es, o Nordeste registra hoje a menor taxa de mortalidade pela covid-19. Em 2021, por exemplo, essa taxa estĂĄ em 49 por 100 mil habitantes, 37% menor do que a mĂ©dia nacional no mesmo perĂ­odo, que chega a 78 por 100 mil habitantes. No Sul, lĂ­der no Ă­ndice, o nĂșmero chega a 109 por 100 mil.

"O Nordeste hoje Ă© quem puxa hoje a mortalidade do Brasil para baixo", diz AndrĂ© Longo, secretĂĄrio de SaĂșde de Pernambuco e vice-presidente do Nordeste do Conass (Conselho Nacional de SecretĂĄrios de SaĂșde).

A taxa de mortalidade do Nordeste na pandemia era de 134 por 100 mil na Ășltima quinta-feira (15). Os trĂȘs estados com menores taxas de mortalidade na data eram do Nordeste: MaranhĂŁo (95 para cada 100 mil), Bahia (114) e Alagoas (117). A mĂ©dia nacional na data ficava em 174 para cada 100 mil pessoas.

Desde o inĂ­cio da pandemia, segundo os nĂșmeros oficiais do MinistĂ©rio da SaĂșde, a regiĂŁo registrou atĂ© a quinta-feira 76 mil dos 365 mil Ăłbitos —o equivalente a 21%.

Longo afirma que o resultado se deve, em partes, porque a regiĂŁo se articulou desde o inĂ­cio e ouviu mais a ciĂȘncia. Mas ele reconhece que, mesmo com uma situação melhor que outras regiĂ”es, o cenĂĄrio Ă© crĂ­tico no Nordeste.

A gente nĂŁo comemora esses nĂșmeros. Mas precisamos reconhecer o esforço dos profissionais de saĂșde e dos governadores, que tiveram coragem de adotar medidas restritivas --que nem sempre tĂȘm uma repercussĂŁo positiva na população, mas precisavam ser adotadas. AlĂ©m disso, ampliamos muito a capacidade hospitalar. SĂł aqui foram 540 leitos de UTI em 40 dias.

AndrĂ© Longo, secretĂĄrio de SaĂșde de Pernambuco e vice-presidente do Nordeste do Conass

Quatro dos nove estados tĂȘm mais de 90% de ocupação de leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva).

Para a infectologista Ana Brito, da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) de Pernambuco, ainda Ă© cedo para ter certeza de que os nĂșmeros se manterĂŁo tĂŁo abaixo da mĂ©dia nacional por conta do incerto pico da segunda onda da pandemia.

"Olhando para Manaus, a gente vĂȘ que teve um perĂ­odo de 45 dias atĂ© a explosĂŁo da epidemia. Mas pode ser que a gente jĂĄ esteja entrando nesse tempo, mas Ă© uma especulação. É preciso aguardar mais."

1Âș dia de lockdown em SĂŁo LuĂ­s (MA) em abril de 2020Imagem: Divulgação/Prefeitura de SĂŁo LuĂ­s

"Indiscutivelmente as medidas de restrição de circulação da população causam uma diminuição dos casos. O problema do Brasil é que a gente não fez medida restritiva de forma rigorosa. A gente aqui fez medidas parciais, mas, mesmo parciais, hå uma resposta, embora mais tímida", completa.


ReferĂȘncia no paĂ­s

Salvador e Fortaleza, duas das cidades mais populosas da regiĂŁo, foram citadas como referĂȘncia em medidas de restrição Ă  circulação bem-sucedidas no Ășltimo boletim da Fiocruz.

"Tendo como referĂȘncia os decretos nacionais que estabelecem as atividades e serviços essenciais, bem como decretos municipais mais recentes de Fortaleza, Salvador e Araraquara (SP), cidades que se submeteram a restriçÔes mais rĂ­gidas e que apresentaram decrĂ©scimo sustentado dos indicadores de criticidade da pandemia, apresentamos no alguns exemplos de atividades e serviços essenciais e nĂŁo essenciais", diz documento da entidade.

Fortaleza decretou o fechamento dos serviços nĂŁo essenciais em 5 de março, flexibilizando apenas questĂ”es pontuais atĂ© aqui. JĂĄ na Bahia, primeiramente houve fechamento de serviços nĂŁo essenciais no Ășltimo fim de semana de fevereiro, mas depois a medida foi esticada para todos os dias da semana em março.

Nos demais estados, todos adotaram algumas medidas restritivas, como toque de recolher, suspensão de eventos, fechamento de bares e restaurantes e restrição de horårios de atividades não essenciais.

A revista cientĂ­fica The Lancet afirmou ainda que o Nordeste Ă© o melhor exemplo de medidas restritivas com sucesso no paĂ­s, mesmo sendo uma ĂĄrea com grande vulnerabilidade social.

A médica e pesquisadora Fernanda Grassi, da Fiocruz da Bahia, ressalta que o resultado do Nordeste chama ainda mais a atenção porque a região tem uma disponibilidade de leitos de UTI menor que Sul e Sudeste.

"Essa menor mortalidade deve estar relacionada Ă  postura adotada pelos governos, que desde muito cedo criaram um comitĂȘ cientĂ­fico com pessoas de grande experiĂȘncia no controle de epidemias. Houve, sem dĂșvida, uma maior busca de seguir a OMS (Organização Mundial da SaĂșde) para mitigar essa epidemia, com campanhas educativas", destaca.

O epidemiologista AntÎnio Lima Neto, da Unifor (Universidade de Fortaleza), afirma que, como a epidemia ainda estå em curso, não hå como cravar que a região não verå um crescimento de casos e óbitos. Entretanto, com as medidas jå adotadas, a região deve ter uma redução na transmissibilidade do novo coronavírus.

"O impacto das medidas restritivas para uma epidemia Ă© um pouco mais tardia, demora mais a acontecer", afirma.


Nordeste errou menos

O neurocientista Miguel Nicolelis chegou a coordenar o comitĂȘ cientĂ­fico do Nordeste em 2020 e inĂ­cio de 2021. Ele deixou o cargo em fevereiro , apĂłs o aumento de casos. À Ă©poca, os governos estaduais nĂŁo seguiram orientaçÔes dos especialistas para fechamento de serviços nĂŁo essenciais.

"Diria que os governos cometeram erros, mas o Nordeste errou bem menos", diz. "É como uma turma em que ninguĂ©m passou de ano, mas os governos nordestinos tiveram a melhor nota da sala", compara.

Para Nicolelis, a regiĂŁo colhe ainda bons frutos das medidas adotadas na primeira onda.

A mensagem passada da gravidade da pandemia foi bem maior, os governos alertaram mais, o que nĂŁo ocorreu de forma tĂŁo explĂ­cita em nĂ­vel nacional. Sem dĂșvida foi a regiĂŁo menos negacionista do paĂ­s.

Miguel Nicolelis, neurocientista e pesquisador

O pesquisador ainda lembra que, na primeira onda, os governos seguiram mais as recomendaçÔes científicas e colheram frutos disso. "Tivemos lockdowns bem sucedidos, começando por São Luís, depois Fortaleza, a Grande Recife e João Pessoa. Os resultados foram bons. Em São Luís, por exemplo, os efeitos positivos foram sentidos por quatro meses e levaram o Maranhão a ter menor taxa de óbito do país", cita, lembrando medidas como modelo para o país.

"AçÔes como a criação de brigadas de saĂșde no PiauĂ­ e a suspensĂŁo do transporte intermunicipal na Bahia foram boas, tiveram grande impacto e reduziram o poder letal da pandemia", diz.

Mortalidade por 100 mil habitantes por regiĂŁo em toda a pandemia


Nordeste - 134

Sul - 184

Sudeste - 186

Norte - 191

Centro-Oeste - 210


Mortalidade por 100 mil habitantes por regiĂŁo em 2021:


Nordeste - 49

Sudeste - 81

Norte - 91

Centro-Oeste - 96

Sul - 107


Fonte: MinistĂ©rio da SaĂșde atĂ© dia o 15/04/2021


Com conteĂșdo UOL

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