Biden colocou Bolsonaro na parede
setembro 30, 2020Pela primeira vez, o Brasil virou tema da campanha presidencial dos Estados Unidos, mas foi uma entrada pela porta dos fundos. O candidato do Partido Democrata, Joe Biden, ameaçou tomar medidas contra o Brasil se o governo Bolsonaro persistir incentivando a destruição da AmazÎnia. No debate com o atual presidente Donald Trump, Biden comparou o descaso do governo americano com o meio ambiente com o Brasil.
“A Floresta AmazĂŽnica estĂĄ sendo destruĂda, arrancada. Mais gĂĄs carbĂŽnico Ă© absorvido ali do que todo carbono emitido pelos EUA. Tentarei ter a certeza de fazer com que os paĂses ao redor do mundo levantem US$ 20 bilhĂ”es e digam (ao Brasil): ‘Aqui estĂŁo US$ 20 bilhĂ”es, pare de devastar a floresta. Se vocĂȘ nĂŁo parar, vai enfrentar consequĂȘncias econĂŽmicas significativas”, disse Biden.
Esta Ă© a segunda vez que, publicamente, Biden faz crĂticas Ă gestĂŁo Bolsonaro e ameaça com retaliaçÔes. Em março, em entrevista por e-mail Ă revista Americas Quaterly, Biden foi ameaçador ao responder sobre a polĂtica ambiental do Brasil. “Os incĂȘndios que atingiram a AmazĂŽnia no verĂŁo passado (2019) foram devastadores e provocaram uma ação global para frear a destruição e ajudar no reflorestamento antes que seja tarde demais. O presidente Bolsonaro deve saber que, se o Brasil falhar em ser o guardiĂŁo responsĂĄvel da floresta amazĂŽnica, o meu governo reunirĂĄ o mundo para garantir que o meio ambiente fique protegido”, afirmou.
Pelo Twitter, Bolsonaro reagiu bradando nacionalismo primĂĄrio. Escreveu Bolsonaro, “o candidato Ă presidĂȘncia dos EUA, Joe Biden, disse ontem que poderia nos pagar U$ 20 bilhĂ”es para pararmos de “destruir” a AmazĂŽnia ou nos imporia sĂ©rias restriçÔes econĂŽmicas.O que alguns ainda nĂŁo entenderam Ă© que o Brasil mudou. Hoje, seu Presidente, diferentemente da esquerda, nĂŁo mais aceita subornos, criminosas demarcaçÔes ou infundadas ameaças. NOSSA SOBERANIA Ă INEGOCIĂVEL (maiĂșscula no original). Meu governo estĂĄ realizando açÔes sem precedentes para proteger a AmazĂŽnia. Cooperação dos EUA Ă© bem-vinda, inclusive para projetos de investimento sustentĂĄvel que criem emprego digno para a população amazĂŽnica, tal como tenho conversado com o Presidente Trump. A cobiça de alguns paĂses sobre a AmazĂŽnia Ă© uma realidade. Contudo, a externação por alguĂ©m que disputa o comando de seu paĂs sinaliza claramente abrir mĂŁo de uma convivĂȘncia cordial e profĂcua. Custo entender, como chefe de Estado que reabriu plenamente a sua diplomacia com os Estados Unidos, depois de dĂ©cadas de governos hostis, tĂŁo desastrosa e gratuita declaração. LamentĂĄvel, Sr. Joe Biden, sob todos os aspectos, lamentĂĄvel”.
No mundo maravilhoso de Bolsonaro, o governo estĂĄ “realizando açÔes sem precedentes para proteger a AmazĂŽnia”, uma mentira. Nos 20 meses de governo Bolsonaro mais hectares de floresta AmazĂŽnia foram desmatados e queimados do que na mĂ©dia de quatro anos. O ministro que deveria cuidar da ĂĄrea, Ricardo Salles, confraterniza com garimpeiros que ocupam terras indĂgenas, acabou com o acordo que rendia R$ 1 bilhĂŁo da Europa para proteger florestas e, agora, fez aprovar medidas que ajudam a destruir manguezais.
O mais grave, no entanto, Ă© o fato de Bolsonaro nĂŁo entender a realidade. Bater no Brasil ficou barato. A imagem de Bolsonaro no Exterior Ă© de um lĂder proto-fascista com a famĂlia envolvida em corrupção, que ameaça a democracia e destrĂłi o meio ambiente. AlĂ©m do mais, impor impostos pesados aos produtos brasileiros ajuda os concorrentes, agricultores americanos com peso eleitoral decisivo em muitos Estados.
Bolsonaro submeteu os interesses do Brasil ao governo Trump como nunca um governo brasileiro fez. Nas votaçÔes internacionais, o Brasil Ă© lulu da PomerĂąnia do Departamento de Estado dos EUA. Para ajudar a campanha Trump, Bolsonaro jĂĄ prejudicou o setor sucroalcooleiro brasileiro ampliando as vantagens de importação do etanol americano e permitiu que o secretĂĄrio de Estado usasse a estrutura brasileira de atendimento a refugiados para fazer propaganda eleitoral. SĂł em sonhos, Bolsonaro podia achar que se alinhar desse jeito com Trump nĂŁo traria consequĂȘncias na hipĂłtese de uma vitĂłria democrata.
Embora esteja na frente as pesquisas, a vitĂłria de Biden serĂĄ suada. A eleição nĂŁo serĂĄ resolvida no dia 3 de novembro, quando os americanos vĂŁo Ă s urnas, mas sĂł em 14 de dezembro, quando o ColĂ©gio Eleitoral se reĂșne. Em desvantagens nos votos, Trump jĂĄ anunciou que vai recorrer Ă Justiça para cancelar as votaçÔes por correio.
O fato Ă© que o Brasil sob Bolsonaro passou a correr um risco. Se Bolsonaro mantiver sua polĂtica de destruição da AmazĂŽnia o preço serĂĄ pago pelas maiores exportadoras brasileiras, todos direta ou indiretamente com negĂłcios envolvendo os Estados Unidos. Vale, Petrobras, BRF Foods, Cargill, Embraer, Braskem, JBS, todas sofrerĂŁo com a tentativa de Bolsonaro de agradar garimpeiros, grileiros de terra e fazendeiros irresponsĂĄveis. PolĂtica Ă© a arte da escolha.
Com conteĂșdo Veja

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